Una Pistola Em Cada Mano” (2012) transformou o catalão Cesc Gay numa marca de sucesso, a um só tempo popular e populista (que joga com chavões “gostáveis”, à prova de riscos), mas hábil na confecção formal de comédias abertas a variáveis da tragédia, da amargura e da política de géneros sexuais. Em 2015, a sua sinergia com Ricardo Darín, em “Truman”, fortaleceu a fornalha hispânica de cinema-pipoca universal, num traço de dramédia que conversa mais com referencias estrangeiras (Ettore Scola, nas suas comédias tristes, como “C’Eravamo Tanto Amati”) do que com a prata da casa, como Carlos Saura ou Berlanga. O humor de Cesc Gay não flirta com o nonsense e o abuso vindos da Movida Madrilena (convertidos em cinema na forma de Pedro Almodóvar), nem com o riso cítrico de Bigas Luna. É uma voz própria, que atrai espectadores com um canto de sereia cujas notas solfejam a infidelidade. Foi o que ele levou ao Festival de San Sebastián com a narrativa em segmentos (ou anthology cinema) “Historias Para No Contar”, que estreia no dia 28 de outubro em Espanha. A julgar pela recepção na sala, que rachou a rir com uma ciranda de desencontros, podemos estar diante de um blockbuster.

Embora o ethos no olhar para as relações entre homens e mulheres pareça ter estacionado no passado, não muito diferente da vista em 1995, via Fernando Trueba, em “Two Much” . O filme de Trueba é uma rara referência genealógica para o lugar de “Historias Para No Contar” no cinema de Espanha. Está em cena um elenco classe AAA. Chino Darín (filho de Ricardo) e Anna Castillo (a estrela hispânica do momento, na disputa da Concha de Ouro com “Girasoles Silvestres”) protagonizam o primeiro segmento, sobre um encontro casual num parque para cães. Maribel Verdú entra num episódio sobre ciúmes entre amigas que falam sobre o trabalho de duplas de corpo. E Jose Coronado (de “No Habrá Paz Para Los Malvados”) põe o filme no bolso numa trama sobre um escritor que vai pedir a namorada em casamento.

Não há nada que já tenhamos visto em “Una Pistola Em Cada Mano”. É puro vaudeville, num entra e sai de cena sem fim, aberto à incorreção política, com o uso corriqueiro de cocaína, sem qualquer senão. E existem abordagens sobre a questão LGBTQIA+ que soam um tanto caricatas. Mas, apesar desses delitos, o filme tem uma vitalidade cómica inegável.

Em 2020, San Sebastián promoveu a pré-estreia de uma joia de Cesc com apelo comercial gigante: “Sentimental”. Era uma versão para o cinema de uma peça teatral da sua autoria: “Los Vecinos de Arriba”. É uma peça que atraiu milhares na Europa e na Argentina. O filme dela derivado foi de um êxito inegável no seu país de origem, trazendo Javier Cámara, o “muso” de Cesc, com protagonismo. Ele regressa aqui numa participação pequena. Mas é difícil tirar os olhos dele, num filme de fotografia corriqueira, que se impõe como crónica de afetos, usando os algoritmos de que o povo gosta para não pesar a mão nos temperos e na filosofia.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
historias-para-no-contar-iguaria-de-humor-com-o-algoritmo-da-eficaciaUm filme que se impõe como crónica de afetos, usando os algoritmos de que o povo gosta para não pesar a mão nos temperos e na filosofia.