O mais aplaudido de todos os concorrentes à Concha de Ouro exibidos nos momentos iniciais do 70º Festival de San Sebastián, “Girasoles Silvestres”, com estreia espanhola marcada para 14 de outubro, tem pouco a acrescentar, como experiência dramatúrgica, à obra do cineasta Jaime Rosales (de “Petra”), mas diz muito acerca da indústria onde nasceu.
É uma trama romântica melodramática filmada em geografias catalãs, a partir do encontro de uma jovem mãe, Julia (Anna Castillo), com três homens de temperamentos distintos. Em cada um, há um ar tóxico que vaporiza a poesia lúdica das relações amorosas esboçadas por Julia. Mas a ardorosa reação da plateia espanhola demonstra o reconhecimento de um papel estratégico ocupado por cineastas como Rosales.
Papel esse ligado a uma transformação histórica no audiovisual espanhol.
Fenómeno transcontinental, “La Casa de Papel” é só um pedaço de um processo de expansão global perpetrado pela Espanha, mesmo passando por crises económicas diversas, para difundir – na TV, cinema e streaming – crónicas do quotidiano em forma de séries ou filmes como se vê nos mais potentes de Rosales, como “Hermosa Juventud”, premiado em Cannes, em 2014. O modo como ele enquadra o mundo, mesmo nas passagens mais melosas de “Girasoles Silvestres”, é consequência de uma movimentação política no seu país que vem do fim da década de 1990, cujos ecos dramatúrgicos ainda se fazem notar.
Em 1999, com o sucesso internacional de “Tudo Sobre a Minha mãe”, que deu o Oscar a Pedro Almodóvar, as agências de exportação espanholas perceberam que filmes e séries são, ainda, a maior diversão e prepararam um conjunto de projetos para fomentar a indústria cinematográfica e as grandes produtoras de conteúdo de TV ( ao que se juntam as plataformas de difusão digital mais tarde). O resultado é uma produção que hoje domina na Netflix, Amazon Prime, Globoplay, etc, contabilizando uma série de “conteúdos” que angariam prémios em todo o planeta, como é esta ciranda do querer e perder assinada por Rosales.
Apostando numa fotografia corriqueira, sem requintes formais, “Girasoles Silvestres” apoia-se no abismo passional em que Julia mergulha ao se entregar a um trio de homens infantilizados. Encara violência física, abandono e agendas repletas de trabalho convertidas em indiferença. Mas ela não desiste dos seus amores, sobretudo do terceiro, Álex (Lluís Marquès), que é o mais lúcido e o maior parceiro. Mas até o hemisfério dedicado a essa personagem chegar, o filme já se (e nos) perdeu na sua trivialidade e na falta de carisma de Anna Castillo. Sobra só a relevância do debate sobre a luta feminina contra o sexismo.




















