Entre os muitos filmes recentes delineados em contramão à metafísica do poder sexista, como “Call Jane” e “Men”, o exuberante thriller “Don’t Worry Darling”, com estreia comercial marcada para a próxima quinta-feira, é o título de maior arrojo formal e de mais maturidade estética na sua articulação política avessa ao machismo. Olivia Wilde regressa à realização de longas-metragens, amparada pelo prestígio da sua estreia (o muito superestimado “Booksmart”, de 2019) fazendo jus à ambição de se firmar na realização, sem abandonar o seu trabalho como atriz. Em cena, num elenco que tem Florence Pugh em estado de graça, Olivia emula o que existe de mais moralizante (e kitsch) na ilustração e na pintura de Norman Percevel Rockwell (1894 –1978), celebrado como o cronista pictórico supremo do American Way of Life para recriar o idílio de Estados Unidos que aquela nação já vendeu ao mundo no passado.
Tudo parece uma publicidade à primeira refeição do dia (daquelas com famílias felizes desfrutando o pequeno almoço regado a calorias) o universo em que um grupo de mulheres, entre elas a jovem Alice (papel de Florence), age como donas de casa orgulhosas e servis. Até que a “peste” (como Freud apelidou o entendimento do inconsciente, na chegada da psicanálise às Américas) deslinda mentiras, num filme sintonizado com a praga das fake news da contemporaneidade.
Misturando “Blue Velvet” com “The Twilight Zone”, num ritmo de montagem taquicárdico (a montagem é assinada pelo brasileiro Affonso Gonçalves, parceiro de Todd Haynes e Jim Jarmusch), o filme de Olivia arranha o conceito contemporâneo da distopia num enredo que sugere algo de irreal a cada segundo. Assim que Alice começa a ter visões e passa a notar estranhezas no dia a dia da vizinha Margaret (Kiki Layne), não restam dúvidas de que ela vive numa mentira, capaz de arrastar também o seu marido, Jack (Harry Styles, económico e preciso). O que mais desafia a plateia é saber que a mentira naquela década de 1950 , onde as atitudes bovinas de todos (sobretudo a submissão da população feminina) soam a algo artificial. Apenas sente-se verdadeiro Frank (Chris Pine, numa arrebatadora atuação), o dono da empresa que oferece miríades à sua equipa de funcionários (todos homens) e às esposas deles.
Estamos assim diante de um “The Stepford Wives”, bem próximo da prosa de Ira Levin, filmada em 1975, por Bryan Forbes, e em 2004, por Frank Oz. Mas não existem esquematismos, nem robótica. Existe uma alegoria do controle machista, expressa na luta de Alice para poder fugir do País das Maravilhas e se emancipar, numa lógica de “mexeu com uma, mexeu com todas”. Lógica que Olivia esmerilha num espetáculo de suspense eletrizante, explorando a psique de cada uma das suas personagens. É um amadurecimento inegável para uma estrela que quer fugir dos ditames da indústria e criar um currículo como cineasta contundente.




















