Cindida entre tensões sociológicas de classe e a angústia imposta pelo peso da tradição (seja a da religião, seja a da família), o cinema tunisino encontrou em Mohamed Ben Attia um porta-voz das dimensões existencialistas da paternidade, seja na ausência ou na (oni)presença, como se vê em “Oura El Jebel”, a sua nova longa-metragem, traduzida como “Atrás das Montanhas” em sua passagem pela 47ª Mostra de São Paulo. O evento começou no dia 19, com “Anatomie d’Une Chute” (a Palma de Ouro de 2023, dada a Justine Triet) e termina no dia 1, com uma cerimónia de premiação, tendo o sérvio Emir Kusturica entre os jurados. A se julgar por um forte boca a boca popular nas terras paulistanas, Attia pode sair daqui com uma láurea de júri popular. A sua passagem pela mostra Orizzonti de Veneza foi cercada de elogios, centrados na forma lúdica com que o realizador, outrora conhecido por “Heidi” (Melhor Filme de Estreia da Berlinale 2016) e “Dear Son” (2018), contextualiza reencontros. Há uma projeção dele nesta terça-feira, no Reserva Cultural (às 18h50 do Brasil), e na quarta, às 21h50, no Espaço Itaú Augusta 1.
“A metástase do amor chama-se família, um mal ainda encarado como necessário, ou como inevitável, comum a todas as culturas, que, um dia, pode acabar, tornando as pessoas mais livres, ainda que profundamente feridas. No seio de uma sociedade de clã existe sempre o interdito, o segredo, o remorso”, disse Ben Attia ao C7nema no Marché de Cannes, onde promovia “Behind The Montains”, título internacional do filme. “Não sei se a recorrência do meu interesse em dilemas familiares faz de mim um autor, pela reiteração de um mesmo debate. O meu foco está menos nas conexões parentais e mais no papel dos jovens num ambiente social. O tempo passa, mas a inquietação e a inadequação da juventude não muda de cultura pra cultura. A inadequação é um fantasma universal”.
Rafik, personagem central da longa, vivido por Majd Mastoura, vive com a sensação sufocante de estar inadequado a todos os padrões morais que o cercam. Depois de passar quatro anos na prisão, ele tem apenas um plano: levar o filho para as montanhas e mostrar o rapaz uma incrível descoberta que fez. O difícil é saber se o que descobriu reside além de sua imaginação.
“O nosso país ainda opera com orçamentos pequenos, de até 1,5 milhão de euros, em projetos que buscam debater conflitos do dia a dia. O meu tema aqui é parte do cotidiano. Existe uma eterna nódoa de incomunicabilidade entre as gerações que parte, no caso familiar, de uma certa imposição da felicidade como norma”, afirma o cineasta. “O que impõe amor a duas pessoas que passaram anos sem se ver. O facto de um pai alimentar, vestir e dar teto a um filho não dá a ele o direito de cobrar do garoto ou da garota uma alegria que pode não fazer parte de seu cotidiano. ‘Dear son’, que leveu à Quinzena de Cannes, já era uma forma de expor essa dificuldade de conexão entre pais e filhos sem passar por questões religiosas tão inerentes à representação da África tunisiana nos ecrãs”, disse Ben Attia. “Há um limite ténue entre a subserviência e a libertação. Eu tento esgarçar essa fronteira por meio do afeto”, diz Ben Attia, comemorando o aumento da produção audiovisual da Tunísia. “Durante 70 anos, meu país fez apenas dois longas por ano. Há menos de uma década, chegamos à marca de 20 filmes ao ano, com o apoio de coproduções e a vitrine de festivais como os de Berlim, Cannes e Veneza”.

