Criaturas e seitas? Isso não é o mais assustador em “Lovrecraft Country”

(Fotos: Divulgação)

When, long ago, the gods created Earth
In Jove’s fair image Man was shaped at birth.
The beasts for lesser parts were next designed;
Yet were they too remote from humankind.
To fill the gap, and join the rest to Man,
Th’Olympian host conceiv’d a clever plan.
A beast they wrought, in semi-human figure,
Filled it with vice, and called the thing a Nigger.

O poema acima faz parte da obra do famoso escritor HP Lovecraft, famoso autor de ficção fantástica e horror que influenciou toda a literatura e cinema no século XX e XXI, sendo muitas vezes utilizado por parte da crítica especializada a adjetivação do seu nome para descrever uma obra que deriva ou se inspira nela (terror Lovecraftiano).

Se é inegável o seu contributo para a literatura (e consequentemente para o cinema e tv), é também inegável o racismo inerente à figura do autor, algo que trespassou frequentemente na sua obra, como nas palavras acima, onde fala da “criação dos negros” (On the Creation of Niggers), descrevendo-os como bestas, “figuras semi-humanas, cheias de vícios”. Não foram só os negros que Lovecraft atacou com a sua marca educacional de supremacia branca anglo-saxónica, mas igualmente católicos irlandeses, imigrantes alemães e até brancos que não descendiam diretamente ingleses.

O universo fantástico de Lovecraft foi o ponto de partida para o livro de Matt Ruff publicado em 2016, Lovecraft Country (Território Lovecraft no Brasil), que agora foi transformado numa série da HBO com o dedo de Jordan Peele, cineasta que assinou uma das mais marcantes obras de horror da década de 2010, “Get Out”, e J.J. Abrams (“Lost“).

No livro/série seguimos o jovem Atticus Freeman (Jonathan Majors do Da 5 Bloods), um antigo militar que juntamente à sua amiga de infância Letitia (Jurnee Smollett) e ao seu tio George embarca numa viagem pela América dos anos 1950 em busca do pai desaparecido (Michael K Williams). 

Como negros na era Jim Crow (de segregação racial no sul dos EUA), a road trip por cidades rurais no coração colonial e confederado onde estes homens estão interditos de passar quando o sol se põe revela um terror tão substancial como aquele aplicado mais tarde na série por criaturas horrendas, feiticeiros e seitas maléficas que tentam libertar poderes do além.

E embora se sinta sempre as influências pulp e marcas camp na abordagem –  é invariável falar de séries como Buffy e outras que tais (Supernatural) para entenderem ao que vão – existe sempre no pano de fundo uma era onde o maior terror dos negros vinha dos brancos, um terror sistémico, enraizado culturalmente e constante que condicionou e oprimiu gerações e gerações de homens e mulheres. Algo muito mais assustador e permanente que aquele que toda aquela panóplia imensa de monstros e bruxarias  com que o trio protagonista nesta jornada se vai cruzar.

Na verdade, “Lovecradt Country” é uma continuação conseguida daquilo que o seu “Get Out” e até “Us” apresentaram. Os maiores monstros são os humanos, e muitos dos “nossos heróis” têm passados obscuros por desvendar. Até mesmo John Carter, o pioneiro herói pulp criado por Edgar Rice Burroughs, como Atticus nos relembra logo a abrir a série.

A figura incontornável da série de romances planetários – que influenciou também ele toda uma linha literária e cinematográfica – antes de acordar em Marte foi ele mesmo um veterano confederado da Guerra Civil Americana.

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