Inspirado no universo de Agatha Christie, mas com uma identidade própria e contemporânea, Jones é a nova série criada e realizada por Bruno Gascon, realizador de Carga (2018) e Sombra (2022), além da série Irreversível (2022). Falada em português e inglês, e filmada em Sintra e Vila Nova de Foz Côa, a produção de seis episódios – em destaque no European Film Market, em Berlim – promete cruzar mistério criminal e drama familiar com um toque sobrenatural.
“Sou um grande fã dos livros da Agatha Christie e do género policial clássico”, disse Bruno Gascon ao C7nema durante a Berlinale, acrescentando que a ideia inicial da série foi precisamente “pegar no conceito, no universo mais tradicional, e desconstruí-lo”.

Sublinhando que no género clássico surgem frequentemente figuras-tipo como o detetive, o mordoma e o herdeiro suspeito, Bruno garante que quis fugir desse molde e dar-lhes “camadas, ambiguidade e zonas cinzentas“. Humanizá-las. “A ideia é desconstruir o modelo ‘Agatha Christie’ e integrá-lo numa abordagem mais emocional e contemporânea.”
Protagonizada por José Pimentão (1899), Laura Dutra (Vermelho Sangue) e Amanda Abbington (Sherlock), Jones parte de uma família disfuncional que se reúne numa propriedade luxuosa para celebrar um noivado. Porém, a noite termina em homicídio e, a partir daí, tudo se complica. Entra em cena o inspetor Oliver Jones, que aparenta ter uma capacidade extraordinária, mas nada é exatamente o que parece.
“A estética britânica fazia sentido para mim dentro deste tipo de narrativa, mas quis ancorá-la em Sintra, num palácio, numa quinta com essa carga histórica. Culturalmente, Sintra é um ponto de encontro natural para estrangeiros, sobretudo ingleses. Pareceu-me plausível”, explica o realizador.
A estreia de Jones em Portugal está prevista para o segundo semestre do ano, na RTP, confirma Bruno, sublinhando que a série nasce já com ambição internacional. A recetividade no European Film Market, garante, tem sido muito positiva, contrariando a ideia recorrente de que o português é difícil de exportar. “Sendo bilingue (português e inglês), isso ajudou. Mas é importante provar que conseguimos exportar conteúdos na nossa língua. Vivemos num mundo global. Temos capacidade de fazer tão bem ou melhor do que lá fora.”

Depois de três longas-metragens, esta é a sua segunda série, uma mudança deliberada na carreira. “A série permite algo que o Cinema não permite: tempo. Posso explorar melhor as personagens, desenvolver camadas, trabalhar as zonas cinzentas. Isso interessa-me muito.” O regresso ao Cinema não está excluído, mas, para já, assume sentir-se muito confortável neste formato. E embora pense sempre em cada projeto como obra fechada, há sempre espaço para uma continuação. “Se houver potencial para continuar Jones, ótimo. Mas gosto de encerrar um ciclo.”
Quanto à televisão portuguesa, reconhece uma evolução enorme nos últimos dez anos, muito graças à RTP. Falta, contudo, aproximar o público, já que as plataformas internacionais têm uma máquina promocional gigantesca. Quanto aos canais privados no nosso país, considera que estes falham e que mais investimento significaria concorrência saudável, mais produção e mais crescimento.


