Vittorio De Sica – La Vita in Scena: “Vittorio De Sica é um tesouro nacional” — Francesco Zippel

(Fotos: Divulgação)

Regressando à secção Cannes Classics depois do retrato dedicado a Oscar Micheaux, em 2021, Francesco Zippel reencontra uma das figuras centrais da história do cinema italiano em Vittorio De Sica – La Vita in Scena. O documentário revisita o percurso do pai do neorrealismo italiano, mas também de um artista que foi ator, cantor, realizador socialmente comprometido, cineasta popular e figura decisiva na construção de outros ícones, como Sophia Loren.

Procurando compreender a empatia que atravessava o seu cinema e a relação única com os atores — profissionais, como Marcello Mastroianni e Sophia Loren, ou não profissionais —, Zippel olha para De Sica como “um tesouro nacional” e “uma noção muito vasta”.

Nesta conversa com o C7nema, o documentarista, que admite ter vontade de passar para a ficção, fala sobre arquivo, família, financiamento, Tarantino, Sean Baker e Ladrões de Bicicletas, que descreve como “quase uma enciclopédia de De Sica” e “uma carta de amor ao mundo”.

O que significa Vittorio De Sica para si?

Vittorio De Sica significa muito para mim porque, antes de mais, é um tesouro nacional. Não quero exagerar, mas acho mesmo que é.

Foi alguém que conseguiu ser o melhor em todos os campos por onde passou. Começou como jovem ator, depois foi cantor, depois tornou-se um realizador muito envolvido socialmente, depois um cineasta capaz de atravessar todos os graus do cinema comercial mantendo sempre uma elegância e uma qualidade altíssimas, e depois voltou a ser ator.

Além disso, ajudou a moldar outros tesouros nacionais, como Sophia Loren. Isso não acontece todos os dias. Por isso estou muito feliz e muito orgulhoso por estar aqui a celebrar alguém como Vittorio De Sica.

Tendo tanta admiração por ele, sentiu alguma pressão para não falhar no documentário?

Não. Tem razão em perguntar, mas vejo Vittorio De Sica como uma noção muito vasta. Ele é muitas coisas.

Não é preciso preocuparmo-nos demasiado, porque sabemos sempre que vamos ter de deixar alguma coisa de fora. Se quiséssemos cobrir tudo em detalhe, talvez fosse preciso fazer uma série sobre De Sica.

Tentei encontrar um equilíbrio entre a vida pessoal dele e a forma como essa vida pessoal se reflete na obra artística. Quis ligar essas duas dimensões, porque são como duas caixas profundamente conectadas. Foi essa interação que tentei mostrar.

O processo de montagem deve ter sido muito complexo. O filme estava “muito escrito” desde o início?

Eu e Michele Castelli, o meu montador, tínhamos uma ideia clara da estrutura, mas também estávamos disponíveis para mudar a posição de certos elementos e seguir aquilo que as entrevistas e, sobretudo, os arquivos nos iam oferecendo.

Os materiais de arquivo influenciaram muito o processo de montagem. Por exemplo, no último capítulo do filme, depois de ver os arquivos que encontrámos, decidi usar imagens de bastidores de O Jardim dos Finzi-Contini e de Duas Mulheres em vez de excertos dos próprios filmes.

Achei que esses bastidores falavam melhor sobre aquilo que ele fazia e, sobretudo, sobre a relação que tinha com os atores.

Wes Anderson é uma das figuras do cinema que fala de Di Sica

No documentário encontramos a família, mas também muitos realizadores. Como foi esse processo de escolha dos entrevistados?

Tentei falar com pessoas que, pelo menos para mim, estavam imediatamente ligadas à sensibilidade de De Sica. Por exemplo, os irmãos Dardenne ou Andrey Zvyagintsev.

Esses foram os nomes mais evidentes para mim. Mas depois fui surpreendido por pessoas como Ruben Östlund ou Wes Anderson, que trouxeram ângulos inesperados sobre De Sica. Isso deu-me uma noção da riqueza dele e da forma como continua a inspirar cineastas de diferentes partes do mundo.

Houve algum realizador que quisesse entrevistar e que não tenha conseguido?

Não por falta de vontade. Por exemplo, falei com Sean Baker, mas ele não estava disponível porque estava a preparar o seu filme.

Ele tem uma enorme paixão pelo cinema mundial e pelo cinema italiano. Acho que teria encaixado perfeitamente porque os filmes dele têm algo de neorrealista. Falam de pessoas muito simples, não são filmes hollywoodianos nesse sentido. Red Rocket, até Anora, são histórias sobre pessoas comuns.

Estão muito próximos da sensibilidade de De Sica. Às vezes, mesmo quando não conseguimos filmar uma entrevista com alguém, uma simples conversa já nos ajuda a compreender alguma coisa.

Houve alguma situação particularmente difícil durante a execução do documentário?

Hoje é cada vez mais difícil financiar filmes como este. Se olharmos para as plataformas, a direção dominante é outra: atualidade, histórias mais tabloides e crime.

Existe a ideia de que há menos interesse por este tipo de histórias. Mas isso não é verdade. Quando se vê a reação aqui, percebe-se que existe muito interesse. E não apenas aqui.

Além disso, muitas dessas histórias parecem todas iguais. Consome-se rapidamente, como se come um gelado: pode ser bom, mas o prazer dura pouco.

Hoje é mais difícil, claro, mas isso não é razão para desistirmos de prestar homenagem e de tornar as pessoas conscientes da vida extraordinária destes gigantes.

Durante a investigação, leu muitos livros sobre De Sica?

Aquilo que tento sempre fazer é ler as palavras do próprio protagonista dos meus filmes. Não quero ser demasiado influenciado pela interpretação que um historiador, por melhor que seja, possa ter sobre essa pessoa.

Prefiro entrevistar especialistas, como Gianluca Farinelli, da Cineteca di Bologna, ou Jean Gili, biógrafo de De Sica. Prefiro ter conversas mais históricas do que críticas. Isso ajuda-me a formar a minha própria ideia sobre a personagem.

Quando se faz um documentário biográfico, a presença da família pode ser importante, mas às vezes também pode trazer restrições ao que se fala sobre o objeto em causa. Já teve esse problema?

Na verdade, não. A minha atitude foi sempre a mesma: ou tenho uma relação muito clara com a família, ou não faço o filme.

Num filme biográfico, a família faz parte da riqueza do filme. É uma chave essencial para compreender a pessoa, porque tudo germina a partir dela.

Se não existir uma boa relação com a família, ou se a família me disser “por favor, não digas isto”, isso é algo que eu nunca aceitaria. Não estaríamos a prestar um bom serviço à história nem ao retrato que estamos a fazer. Seria como desenhar um fato sem uma perna. Não faz sentido.

Em festivais mais artísticos, por vezes há uma certa resistência às entrevistas frontais, as chamadas “talking heads”, por parecerem demasiado televisivas. No seu cinema, elas são muito presentes. Isso tem a ver com a fisicalidade dos entrevistados? Por exemplo, Tarantino fala com as mãos, ocupa o espaço. Isso enriquece.

É uma perspetiva interessante. Quando temos talento num filme, temos muitos elementos fortes em cima da mesa. Com Tarantino, por exemplo, temos um dos historiadores de cinema mais originais com quem se pode falar. Temos também talvez o maior “ator documental” que se pode imaginar.

Quando começamos a ouvi-lo, acreditamos que ele esteve lá. Com Tarantino temos a sensação de que ele estava presente quando Sergio Leone ou William Friedkin estavam a fazer os seus filmes. Talvez ainda nem tivesse nascido, ou fosse apenas uma criança, mas transmite essa sensação.

Isso tem muito valor. Claro que só existe um Tarantino no mundo, graças a Deus. E mal posso esperar para ver o próximo filme dele e a peça que vai fazer no West End no próximo ano.

Mas é preciso encontrar equilíbrio. É também uma questão de temperatura. É importante haver equilíbrio entre homens e mulheres, e também entre diferentes atitudes. Algumas pessoas são excelentes, mas muito calmas. Isso nem sempre serve o propósito do filme, porque há uma questão de ritmo e de montagem que precisamos de respeitar.

Vittorio De Sica – La vita in scena

Está já a trabalhar em novos projetos?

Escrevi um argumento para uma longa-metragem de ficção. É algo que queria tentar fazer há muito tempo.

Tenho também algumas ideias para novos documentários, mas este filme foi muito exigente, no bom sentido da palavra. Ainda não consegui concentrar-me muito nas novas ideias. Talvez daqui a um mês tenha mais clareza.

Mas pretende continuar a fazer documentários?

Sim, isso é certo. Mas esta outra história é algo que senti realmente vontade de contar. Escrevi-a muito rapidamente e agora estou à procura de financiamento. Isso faz parte da minha vida. Vamos ver, mas estou confiante de que virão coisas boas.

Tem um filme favorito de Vittorio De Sica?

Tenho muitos, mas Ladrões de Bicicletas é, para mim, uma resposta óbvia e ao mesmo tempo inevitável.

É um daqueles filmes, como Citizen Kane, Tempos Modernos ou Os Quatrocentos Golpes, em que não está apenas sobre aquele realizador, mas também um mundo inteiro.Vemos ali aquilo que ele queria expressar através do cinema e encontramos elementos que depois atravessam todos os outros filmes. Ladrões de Bicicletas é quase uma enciclopédia de De Sica e, ao mesmo tempo, uma carta de amor ao mundo.

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