Caso raro de faroeste latino-americano — mais raro ainda pelo emprego explícito das cartilhas do filão talhado por titãs de gerações e estéticas diversas (de John Ford a Sergio Leone) —, Terra Devastada fará a sua estreia mundial na 49.ª Mostra de São Paulo, no próximo dia 26, e leva no seu galope o legado cultural do estado do Maranhão. Frederico Machado assina a realização deste western existencial e psicológico, ambientado nas décadas de 1960 e 1970, com Buda Lira no elenco. O argumento conta a história de um pistoleiro, um andarilho silencioso que regressa à sua cidade de origem em busca de vingança. Em criança, viu os pais serem mortos, no interior maranhense, por um latifundiário proprietário de uma fazenda. É tempo de acerto de contas.
Filho de um casal de poetas, apelidado nos festivais do Brasil de “o David Lynch da cidade de São Luís”, Frederico Machado assaltou olhos, corações e mentes da cinefilia nacional com “Litania da Velha”, em 1997, e, desde então, a sua obra tem procurado redesenhar o Nordeste do Brasil através de uma estranheza que dialoga com a inquietação do realizador norte-americano por detrás de Blue Velvet (1986) — daí a analogia. Desde então, não apenas realizou filmes aclamados como criou festivais, montou escolas de audiovisual, abriu salas de exibição e lançou um selo de DVDs — tudo sob a chancela Lume. A sua loja online (www.lumestore.art.br) levou ao mercado edições digitais com joias de Yasujirô Ozu (1903–1963), Barbara Loden (1932–1980), Bigas Luna (1946–2013) e Elem Klimov (1933–2003). Lançava esses clássicos enquanto filmava narrativas muito autorais como O Exercício do Caos (2013) e As Órbitas da Água (2020).

Esta conversa com o C7 abre espaço para mapear o Maranhão no cinema.
Qual é a dimensão de western que existe no teu novo filme e com que linhagem metafísica do género ele dialoga?
“Terra Devastada” é a minha longa-metragem com mais apelo popular. Depois de alguns trabalhos que dialogam essencialmente com a poesia, o psicológico e o existencialismo, decidi trabalhar um género que me permitisse um encontro mais direto com o público. Filmei de forma direta, uma história mínima, pequena. Mas tento uma composição de personagens que pertençam a um universo. O faroeste é um género tão rico em possibilidades e tão pouco explorado no Brasil. Creio que a busca por vingança é o tema mais comum no género — muitas vezes uma jornada metafísica por justiça ou paz interior. O interessante neste género é que vai além da simples narrativa de aventura e justiça; investiga o que está para lá do visível, do físico. Apesar de ser o meu filme com menos signos e simbologias, há sempre a presença da busca pelo amor dos pais, pela mãe perdida, a procura do desejo corrompido, a procura de um significado para a vida. E há sempre um retorno a personagens fragilizados e perdidos na cobardia, na manipulação, com a fragilidade do corpo e da alma muito presentes. O meu cinema é composto de sofrimento e solidão — solidão intrinsecamente ligada ao meu estado permanente de vida. Sofrimento, por fazer uma arte tão difícil e ser ainda tão pouco visto, analisado e debatido.
Pode dizer-se, portanto, que as personagens de “Terra Devastada” são todas solitárias nos seus mundos?
O choque das personagens dá-se sempre no contacto com o outro, com um mundo desconhecido que, à medida que a narrativa avança e se resolve, se revela sempre o mesmo mundo. Não há escapatória. Não há solução. Em “Terra Devastada”, coloco também questões sobre a desconstrução da violência — que surge numa cena de forma alegórica, sem os efeitos visuais dos tiros —, a ambiguidade moral, tão comum ao género, e a ideia de (des)construção de um país.
O faroeste é, historicamente, um signo de violência no cinema. Como se dá o contacto com a porção violenta do western neste filme? O que é a violência no teu cinema?
O Maranhão é um dos estados mais violentos do Brasil no que toca a conflitos de terra, violência armada e atuação de criminosos como madeireiros e traficantes de droga. É violento também para comunidades tradicionais que enfrentam ameaças, emboscadas e tentativas de expulsão por grileiros, mesmo tendo direito constitucional à terra. Fazer com que a violência coletiva se traduza numa violência pessoal, individual — é isso que “Terra Devastada” almeja. A visão aristotélica da tragédia sugere que a exposição a emoções como medo e piedade pode ter um efeito de purificação, de catarse; recorro a isso. Também filmo para estimular uma reflexão sobre questões sociais, morais e psicológicas — talvez de modo inconsciente, porque o que almejo, de facto, é colocar o meu mundo em estado de choque com o do espectador. O desconforto narrativo não existe neste filme, porque a sua estrutura é tradicional, mas queria proporcionar pelo menos algum desconforto. Mesmo que o público entenda desta vez todas as nuances — afinal, o filme resolve-se na sua própria narrativa —, eu queria imprimir um choque, uma força nessa tragédia humana. A violência, portanto, serve para ativar o pensamento do público: é uma ação humana tão comum quanto trágica. Além disso, há a questão do corpo — o corpo como terra explorada. A presença da mulher no meu cinema também é forte, e tentei trabalhá-la de forma mais evidente. Em “Terra Devastada”, coloca-se a questão do corpo devastado, explorado. Por isso, o sexo surge como questão de poder. Mas é também abstrato, diluído, sem forças e sem grandes reverberações existenciais. Na coreografia da violência há algo de fantasioso e inexistente — uma fabulação da própria vida.
Como se desenha o cinema maranhense na História? Quando começou? Quando fez a sua primeira longa-metragem? Existem fundos locais para produção?
Não considero ainda o meu cinema “maranhense”, simplesmente porque, até ao momento, são poucos os trabalhos de facto apoiados ou patrocinados pelo estado. Filmo no Maranhão porque é a minha terra, o estado que amo. Mas ainda não existe um “cinema maranhense” como há cinema pernambucano, cearense ou paraibano. E acredito que ainda vai demorar. Há um ciclo de muitas produções no estado devido à Lei Paulo Gustavo, mas nada que se sustente como movimento. Os filmes não dialogam entre si, os realizadores não conversam sobre as obras, não há troca de equipas ou de elencos que permita definir um movimento. São filmes individuais, individualistas. Talvez o “cinema maranhense” seja isso: a ideia de um cinema individual, de filmes únicos que até podem chegar a algum lugar ou a alguém, mas sempre de forma errática e desequilibrada. O cinema maranhense ainda espelha a pobreza do estado. Diria que é o reflexo de um lugar belo, com um povo consciente e histórias por descobrir, mas ainda massacrado por estruturas políticas corrompidas, por uma economia frágil e por uma educação cinematográfica inexistente. Filmei a minha primeira curta-metragem em 1997. A primeira longa-metragem chegou em 2013. É uma história de vida. E, desses tempos até hoje, 2025, não aconteceram mudanças significativas. No Maranhão, o tempo parece um estado de ausência permanente.

