É louvável a carreira que o documentário carioca de timbres pop “Ivan, O TerrirVel” – sobre a obra do cineasta e artista plástico Ivan Cardoso, realizador de “O Segredo da Múmia” – vem fazendo, com passagem assegurada no MotelX, a zarpar no dia 7, em Lisboa.
Se você nunca ouviu falar em Ivan, a genialidade de “As Sete Vampiras” (um fenómeno de bilheteiras dirigido por ele em 1986) basta para ilustrar as suas reinvenções dos monstros míticos da Universal, da Hammer e afins.
Coube ao crítico de cinema Mario Abbade resgatar esse brilhantismo que atravessou a década de 1980, angariando fãs até chegar aos anos 1990, com “O Escorpião Escarlate”, e aos anos 2000 com “Um Lobisomem na Amazónia” (2005). Autor do obrigatório livro “A Primeira e Única New York City – A Discoteca Que Iniciou A Era Disco No Brasil” (em parceria com Celso Rodrigues Ferreira Júnior), Abbade captou as loucas invenções do realizador (ainda ativo e a mil) numa longa-metragem com passagem pelo Fantasia International Film Festival (em Montreal, no Canadá); Ravenheart International Film Festival (Oslo, Noruega), e pelo Seattle Latino Film Festival (EUA), que vai de 9 a 17 de outubro. Isso sem contar a mais importante vitrina de narrativas fantásticas do mundo: Sitges, cuja maratona sobrenatural acontece em outubro, em Barcelona.
Na produção, Abbade promove um resgate da obra de Ivan, mesclando material de arquivo, cenas documentais, animações e reconstruções ficcionais, de modo a refletir sobre sua importância cinematográfica e traçar o retrato de um personagem marcante na história do cinema brasileiro. Também retrata a parceria de Ivan com o artista plástico Hélio Oiticica, o poeta Torquato Neto e os cineastas Glauber Rocha e José Mojica Marins (Zé do Caixão).
“Eu tenho muito medo de morrer, por isso, faço comédias de terror: é para enganar a Morte”, disse Ivan em uma entrevista ao Jornal do Brasil em 2018. “Faço um tipo de cinema que dava 5 mil espectadores por dia num tempo em que as grandes salas de exibição do meu país não haviam se tornado tempos religiosos. Quando sou chamado pra algum festival do exterior, vejo alguns filmes que realmente dão medo, sobretudo os americanos, com muito recurso. Mas eu me volto para a simplicidade, cada vez mais, e vejo com encanto usar fantasias como elemento cultural do terror”. À época, ele trabalhava no projeto experimental “O Colírio do Corman Me Deixou Doido Demais” e ainda falou sobre seu trabalho como fotógrafo, que é reconhecido mundialmente, sobretudo por um clique que fez de Jean-Luc Godard na Croisette, nos anos 1980. “Fotos são necrológicos: no fundo, ao retratar uma pessoa, você está guardando algo que vai morrer. E eu vivo em sintonia com esses mortos”.
Em 2018, Abbade documentou a carreira do mítico diretor Neville D’Almeida (de “A Dama do Lotação”), em paralelo a seu trabalho como organizador do festival Rio Fantastik e curador da Sessão do Cramulhão. Nesta conversa com o C7nema, o crítico e cineasta analisa a estética que transformou Ivan num ícone do tropicalismo cinematográfico no Brasil.
Inventor e curador do Rio Fantastik, você tem um longo trajeto de análise, de estudo, do horror como expressão dramatúrgica. Onde entra o terrir? O que Ivan deu de mais original ao terrir?
O terrir, na obra do Ivan Cardoso, é uma mistura de comédias ao molho de chanchadas brasileiras, com filmes de terror e suspense clássicos norte-americanos. A originalidade vem do tempero do tropicalismo brasileiro que ele tem. Filme de terror com comédia já existe desde o início do cinema. Mas o Ivan juntou a isso a chanchada, a pornochanchada (termo que designa a comédia erótica praticada no Brasil entre 1969 e 1985) e o tropicalismo. São temperos que o tornam singular.
De que maneira a sua narrativa dialoga com a estética pop de Ivan Cardoso e com a sua herança tropicalista?
Sei que isso não é uma regra, pois cada um segue seu próprio dispositivo documental. Mas, nos meus documentários, gosto de colocar um pouco da marca estética do meu biografado e estilizar da maneira que são os filmes daquele realizador que documento. Já que o documentário é sobre um diretor de cinema, acho interessante você ter passagens, cenas e sequências que dialoguem com a obra daquele realizador. A pessoa que se interessa pelo assunto, com certeza, já viu algum filme do Ivan Cardoso. Se não viu, vai querer ver. Cria conexão. É claro, você pode fazer um documentário de uma maneira completamente diferente da obra do autor ali biografado e isso pode ficar interessante também, pelo contraste. Mas eu gosto de incluir sequências que lembrem a maneira que esse cineasta por mim visitado tornou-se importante. Existem sequências no meu filme que tentam ilustrar, visualmente, aquilo que o Ivan fez nos filmes dele. Colagens, animações, situações nonsenses, surrealistas. A gente faz um pouco de ficção em algumas sequências e essas tentam repetir a estética do Ivan para que a pessoa entenda o que o Cardoso fez. Já havia feito isso no filme do Neville, em relação ao Cinema Marginal, e faço isso, de novo, mas de outra maneira, nesse filme sobre o terrir, agora em relação direta ao cinema do Ivan.
Ao largo de sua carreira como diretor, o Ivan firmou prestígio como artista plástica, com distinta trajetória na fotografia. O quanto essa dimensão dele transpira no seu filme? O que o artista plástico Cardoso legou ao terrível Ivan dos cinemas?
A obra do Ivan Cardoso como artista plástico é uma mistura de coisas, como um Andy Warhol. O Ivan é um artista que é difícil de colocar em uma vitrina só. O Ivan faz mil coisas diferentes: faz pintura, faz escultura, junta coisas e cria outro tema. É sempre ligado ao terrir, mas é difícil catalogar a obra dele. Às vezes, elas nem parecem ser do mesmo artista. E isso enriquece muito sua criação. Acho que a cabeça do Ivan Cardoso é uma cabeça que não para de girar o tempo todo. Ele é uma pessoa muito inquieta, tudo dele precisa ter movimento. Então, vira uma coisa meio surreal, engraçada, louca e diferente. Existe uma certa inquietação na obra dele como artista plástico. E essa inquietação a gente vê mais nas obras de arte que no cinema. No cinema, ele é inquieto, mas segue uma linha narrativa mais clássica, numa linha cartesiana com começo, meio e fim. Porém, eles possuem um tom nonsense, são meios loucos.
Que conexões o .doc de Ivan trava com a tua obra anterior, sobre o também transgressor Neville D’Almeida?
Como tinha dito antes, coloquei um pouco do Cinema Marginal no filme do Neville. Às vezes, a cena desfocava e a gente fazia isso de propósito e voltava logo ao foco, pra lembrar as pessoas de que o cinema marginal era assim. Era take um, você não repetia, não tinha dinheiro para isso. Se um cachorro passasse na hora da cena, ficava o cachorro. Já no filme do Ivan, a gente tentou trazer o espírito do terrir e sua inquietação, numa loucura de imagens. É um turbilhão de cores e imagens ao mesmo tempo. As duas obras dialogam bastante, porque existe uma sequência bem legal no filme do Ivan que eu não quis usar no filme do Neville. Foi um making of de um trabalho do Neville, o “Surucucu Catiripapo” (1973), que ele fez. Por ser uma geração um pouco mais jovem, o Ivan fazia os making ofs de muitos realizadores. Ele nem sabia o que estava fazendo. Ele ia nos sets de filmagens desses cineastas e filmava. Ele fez isso no “Surucucu”, do qual o Neville não tem mais nada… fora esse making of do Ivan. Ele fazia com super 8 e tem uns dois ou três minutos de imagens disso. Eu não usei essas imagens no documentário do Neville propositalmente, porque já estava pensando em fazer o filme do Ivan. Elas fazem uma conexão direta entre os dois filmes. Quem assiste ao filme do Neville e depois assiste ao filme do Ivan vai perceber isso. Eu mostro outros making ofs que o Ivan fez, mas esse, eu mostro na íntegra para fazer a conexão.

