Quando tinha 18 anos e estava sozinho num posto de guarda num acampamento militar no deserto da Judeia, o realizador Dani Rosenberg, que concorre este ano ao Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, numa decisão espontânea, desceu da torre de observação, subiu a cerca do acampamento e começou a correr no que acreditava ser a direção da estrada principal. Incapaz de localizar a estrada no meio da escuridão e caminhando sem destino, ele resolveu voltar atrás na sua fuga, regressando ao acampamento. Nunca falou do assunto a ninguém, pelo menos até agora, já que o seu “The Vanishing Soldier” explora esse conceito, o de um soldado em fuga da obrigatoriedade militar e da violência, só que ao invés a fuga é bem sucedida.
“Este filme é uma antibiografia”, disse Dani ao C7nema em Locarno, criando através da ficção uma realidade que podia ter sido a sua. “É verdade que tentei fugir, mas fui um covarde e ao fim de uma hora de corrida desisti. Tento agora imaginar o ‘se”. E se eu tivesse escapado? Foi a partir deste elemento de fuga que fui construindo o meu filme, que aborda alguém que quer fugir da sua própria identidade. Uma pessoa que faz isso e quer anonimidade, mas é impossível hoje em dia. Todos a procurarem um homem que não sabem o que lhe aconteceu, mas imaginam o pior”.

E esse “pior” envolve a hipótese de o jovem soldado ter sido capturado ou morto pelos palestinos, o que faz o exército subir o nível de agressividade. “Não há escape desta situação, da violência. E leva essa violência e guerra com ele na sua fuga pelas ruas de Telavive”, quando na verdade a única coisa que queria era apenas visitar a namorada que está de partida para fora do país. “Telavive é uma das cidades mais maravilhosas de Israel, mas a 1 hora de lá temos Gaza”, diz Dani, que no seu filme lança ainda bicadas à grande ficção que Israel criou sobre a sua História, que vão de encontro a uma frase que diz que a narrativa israelita é de ficção e a da palestina é documental.
“Os vencedores controlam sempre a narrativa”, afirma o cineasta, que crê que o seu filme vai ser bem recebido pelos jovens israelitas, mas mal pelas entidades oficiais, em especial as militares. Sobre se esse “mal recebido” terá reflexo na concretização de futuros projetos que estejam dependentes de fundos estatais, Dani espera que não, mas levanta a hipótese de tal acontecer.
Independentemente disso, o cineasta tem também trabalhado na televisão, e com sucesso, como “Milk & Honey” (2015) confirma. “Na minha cabeça tenho uma ideia de balanço entre o trabalho para TV, mais dependente da narrativa, e o de cinema, mais livre onde se pode jogar com essa narrativa e transformá-la de maneira mais arriscada”.
O Festival de Locarno decorre até ao dia 12 de agosto.

