O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder. Beleza televisiva

(Fotos: Divulgação)

Alicerçada num território pantanoso, povoado por guerras de audiências e assombrada por um passado de referência, “Os Anéis do Poder” gerou nos fãs de Tolkien – desde o minuto zero – sentimentos que variaram entre a ansiedade e o receio.

A fasquia era elevada, a data de lançamento auspiciosa, a rivalidade em alta. À sua sombra estava [e está] o projeto HBO, “House of The Dragon”. O orçamento anunciado para a série Amazon era astronómico. Desde o anúncio do projeto que o fator risco marcava uma presença constante.

Geralmente, um amante de ficção épica tem três amores principais: os livros de J. R. R. Tolkien; os de George R. R. Martin e as suas consequentes adaptações ao cinema / TV; e o universo “Guerra das Estrelas“. Amantes estes, que atualmente, vivem tempos felizes.
Se as novas vertentes do universo criado por George Lucas estão a gerar encantamento pelos lados da Disney+, o regresso a Westeros está a ser um deleite, o retorno à Terra Média relevou-se irrepreensível.

Que bom foi voltar a ver a elegância clássica dos elfos, as suas incríveis cidades, a sua sabedoria ímpar; que delícia reencontrar os anões, sempre rabugentos, brutos, fiéis, trabalhadores e capazes de criar fabulosos palácios por entre as montanhas. Que alegria é conhecer os amorosos antepassados dos hobbits, os pequenos, preguiçosos e sensíveis harfoots. Até rever os asquerosos orcs é um gosto e sempre que os vemos, parece que sentimos o seu mau cheiro. Aquele sentimento místico e tão característico destas aventuras epopeicas: a dicotomia entre o bem o mal, entre o belo e o horrendo; um universo povoado por humanos e muitos seres mágicos, míticos e sobrenaturais.

Apesar de Peter Jackson não estar envolvido no projeto, não foi esquecido. As referências ao passado cinematográfico não são óbvias, mas os apontamentos estão lá. O maior exemplo está talvez na personagem Galadriel, cuja reinterpretação não ignora a forma como foi apresentada por Cate Blanchett nos filmes do neozelandês. Nesta prequela, forma-se a personagem incrível que conhecemos no grande ecrã.

Para mergulhar neste projeto Amazon, não é obrigatório ver os filmes anteriores ou ler os livros, no entanto, um conhecimento prévio – mesmo que não profundo – ajuda muito na compreensão da narrativa e na identificação de nomes, genealogias, geografia, lendas e tantas outras pequenas referências que povoam e ilustram todo este “novo” universo.

A escala épica das histórias de Tolkien encontra justiça nesta aventura televisiva desenvolvida por J. D. Payne e Patrick McKay. Em “Os Anéis do Poder” recuamos à Segunda Era da História da Terra Média, milhares de anos antes dos eventos narrados em “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”, uma época em que os grandes poderes foram forjados, em que reinos ascenderam à glória e outros caíram em ruínas. Uma época em que heróis improváveis nascem e são testados e em que o vilão maior dos livros de Tolkien encontra terreno para se engradecer.

O valor do orçamento é justificado com a beleza de cenas que tiram literalmente o fôlego aos mais emotivos, com um destaque especial e pessoal para a “cena dos pirilampos”, que é só das coisas mais bonitas feitas para televisão. A tecnologia é de ponta, o design e os cenários são mágicos, o guarda-roupa e acessórios são absolutamente soberbos.

A música, tão importante nos seis filmes de Jackson, volta aqui a ter um papel determinante. O compositor do tema principal é o mesmo dos filmes de Jackson, Howard Shore e o resto da banda sonora foi desenvolvido pelo compositor americano Bear McCreary, que junta novas harmonias às icónicas melodias. A banda sonora faz a ponte entre o bem e o mal, é diferenciadora entre povos e os seus reinos, marca o passo entre cenas de ação e outras de ritmo mais lento mas, mais importante do que isso, faz, também ela, um elo de ligação entre o passado e o presente. Entre as duas trilogias passadas e a atual adaptação televisiva.

O recurso a um elenco praticamente desconhecido foi um risco que valeu muito a pena, Morfydd Clark tem um desempenho notável como Galadriel bem como Robert Aramayo como o sábio Elrond [que foi interpretado por Hugo Weaving], Owain Arthur como anão Durin IV [príncipe de Khazad- dûm] e Markella Kavenagh como a encantadora e doce harfoot, Nori Brandyfoot. Quatro atores “principais” que premeiam ainda mais, com um encantamento sublime, estes dois primeiros episódios.

Ainda a digerir toda a história e sobretudo toda a beleza destes dois capítulos, “Os Anéis do Poder” é tudo de bom. Oferece elementos visuais e estéticos únicos, personagens muito interessantes e uma história – que apesar de já sabermos como termina – emocionante. No fim, o sentimento tranquilizador e a certeza absoluta de que esta adaptação televisiva é fiel à incrível herança literária de J.R.R. Tolkien.

Os episódios desta primeira temporada de “Os Anéis do Poder” serão lançados na plataforma Prime Video às sextas-feiras. Os dois primeiros capítulos já estão disponíveis no catálogo.

Últimas