O luto de “Game of Thrones” ainda paira sobre nós. Foi um adeus estranho, pela liberdade adaptativa – sem base nos livros – mas sobretudo porque ao longo de várias temporadas criamos na nossa mente um fim em que Jon Snow, mais do que Daenerys Targaryen, ia brilhar e tomar aquilo que era seu por direito. Mas foi também um fim estranho porque há muito que pairava no ar a ideia da continuidade em séries derivadas. Um fim com sabor a sucessão, reinterpretação, prequela ou sequela.
Agora finalmente, regressamos aos Sete Reinos, a Porto Real e ao Trono de Ferro. Tudo pintado a louro platina e forjado por uma incrível rivalidade entre duas estrelas maiores: Matt Smith como Daemon Targaryen e Rhys Ifans como Otto Hightower, a Mão do Rei [Viserys I Targaryen].


Não seria justo garantir aos leitores que para ver “House of the Dragon” não é necessário um conhecimento prévio da história criada por George R. R. Martin. Apesar da história ser uma prequela e recuar ao passado da cronologia apresentada em “Game of Thrones“, o desfile de nomes, apelidos, localidades, referências a acontecimentos passados e até a premonições futuras, determina que um saber básico dos assuntos que a serie aborda, facilita o engajamento com a narrativa.
“Tal como os seus dragões, os Targaryen não respondiam nem perante os deuses, nem perante os homens”
“A Fúria dos Reis”, As Crónicas de Gelo e Fogo – Livro 3
O primeiro episódio apresenta a Casa Targaryen, longe do seu expoente máximo e na curva descendente para a sua extinção. Uma família alicerçada em relações incestuosas e poder barroco, sustentado quase na totalidade pelos seus dragões.
Os Targaryen são apresentados em três vertentes / personagens diferentes: Viserys I Targaryen [interpretado por Paddy Considine], o quinto rei dos Sete Reinos, um “homem caloroso, gentil e decente“, mas que subiu ao trono não por direito mas porque foi escolhido por um conselho de lordes; Daemon Targaryen [Matt Smith], filho mais novo de Baelon Targaryen, irmão do Rei Viserys I Targaryen e futuro [segundo] marido de Rhaenyra Targaryen [a sua sobrinha], ambicioso, ousado, perigoso, impetuoso e tão charmoso quanto temperamental; e Rhaenyra Targaryen [Milly Alcock] a primogénita e única filha viva do Rei Viserys I, que espera tornar-se a primeira mulher governante de Westeros.



Uma herança pesada que é conjugada de forma perfeita com o futuro que nos foi apresentado a Daenerys Targaryen e consequentemente a Jon Snow em “Game of Thrones”. As palavras de Viserys à filha ecoam na nossa mente e fazem uma ponte perfeita com a série anterior: “E se o mundo dos homens é sobreviver a um Targaryen deve estar sentado no Trono de Ferro. Um rei ou uma rainha. Forte o suficiente para unir o reino contra o frio e a escuridão. Aegon chamou o seu sonho de ‘Uma Canção de Gelo e de Fogo’”. [tradução livre].

Em “House of the Dragon”, as personagens, as suas personalidades, motivações e ligações são claras e de fácil entendimento. Neste primeiro episódio nada parece plano ou forçado, é tudo muito fluido e natural.
Se Matt Smith é apresentado como uma espécie de psicopata vilão que gera instantaneamente empatia com o público, o clássico vilão que amamos odiar, é em Otto Hightower de Rhys Ifans que surge a surpresa maior. Apresentado como uma espécie de protetor do reino, garante da ética e fiel à corte, depressa resvala para o pior dos tipos de vilão, aquele que usa todos os meios para conseguir o que quer, mesmo que isso implique usar – sem pudor – os filhos.
O recurso ao CGI nos cenários e sobretudo nos dragões é mais competente do que o universo previamente criado por David Benioff e D. B. Weiss. Os dragões – apesar de não terem muito tempo de antena – são tratados como personagens distintas, e não apenas como dinossauros cuspidores de fogo. Têm personalidade e características distintas uns dos outros. Os dragões devem espelhar as características do elemento Targaryen que os domina.
Os cenários, assessórios, guarda-roupa são pensados ao detalhe. É inegável o papel principal que é dado às vestes e sobretudo às armaduras de Daemon Targaryen, um complemento e continuidade da sua personalidade e daquilo que representa. Destaque obrigatório ao imponente Trono de Ferro, um espaço que se alonga pela escadaria que o antecede, repleto de afiadas espadas. Ao contrário do Trono apresentado em “Game of Thrones“, este assento – símbolo do poder do soberano – não é confortável como demonstra a ferida [nas costas] que não sara e os cortes nas mãos de Viserys. A forma como o trono é prolongado serve também para impor distância e respeito à corte, forçando uma distância entre o monarca e os súbditos. Se relativamente ao primeiro Trono, George R.R. Martin foi crítico, neste novo Trono de “House of the Dragon“, parece que o autor encontrou justiça estética.


A fasquia está elevada. Será que “House of the Dragon” vai manter ou superar a qualidade apresentada nesta primeira amostra? Esperemos que sim pois uma coisa é certa, a cerca de 1 hora e 6 minutos do episódio 1 soube a pouco, sentimento este que em televisão é bom…
A série criada por Ryan J. Condal e George R. R. Martin para a HBO será composta – nesta primeira temporada – por 10 episódios.

