Morreu Ivan Passer, figura da “Nova Vaga” do cinema da Checoslováquia

(Fotos: Divulgação)

Morreu aos 86 anos o cineasta Ivan Passer (1933-2020), uma das principais figuras da chamada “Nova Vaga” do cinema da antiga Checoslováquia.

Radicado nos EUA desde 1969, quando fugiu do seu país com a desculpa de uma visita à Áustria, Passer foi amigo e colaborador próximo de Milos Forman, que conheceu num colégio interno para delinquentes e crianças que perderam o pais durante a 2ª Guerra Mundial (outros estudantes nesse colégio incluiam Vaclav Havel e Jerzy Skolimowski).

Eles iriam reencontrar-se na escola de cinema em Praga, onde começou a colaborar nos filmes de Forman, sendo assistente de realização de A história que nunca aconteceu (1963); O Ás de Espadas (1964); e Os Amores de Uma Loira (1965). Colaborou também – como assistente de realização – com Vojtech Jasný (Procesí k panence, 1961) e assinou o seu primeiro filme a solo, uma curta, em 1964. No ano seguinte estreou-se nas longas metragens (Intimní osvetlení) e, já nos EUA, realizou Born to Win (1971), com George Segal no protagonismo, ainda que contra a sua vontade, como explicou à Film Comment em 2016: “A United Artists tinha um contrato com o George Segal e estavam obrigados a dar-lhe três projetos por ano, então deram-lhe o guião para ler. Segal decidiu fazê-lo, mas eu não queria o George Segal! Ele era um ator muito difícil. O argumentista pediu-me de joelhos para aceitar o George Segal, porque, caso contrário, o filme não seria feito. Eu aceitei, mas Seagal era uma verdadeira ‘prima donna’.


Passer e Forman, uma amizade que durou 7 décadas

Três anos depois assinou Patrulha Auxiliar (1974), uma comédia inspirada numa conversa que teve com um taxista. “Conheci um motorista de táxi que me contou que fazia parte de um grupo de vigilantes na baixa de Manhattan, tentando proteger o bairro contra o crime. Pensei que era uma ótima ideia para uma comédia. Escrevi o guião e cometi um grande erro: era quase uma comédia apalermada. Ernest [ator Ernest Borgnine] era um dos protagonistas, e por algum motivo eu matei-o no filme. Foi uma mudança de género dentro do filme. A plateia riu o tempo todo, mas de repente esse tipo foi morto e todos ficaram atordoados. Aprendi aí que você nunca deve fazer isso num filme“.

Seguiu-se Trunfo na Manga em 1976, com Omar Shariff no elenco, e Os Banqueiros um ano depois. Michael Caine e Cybill Shepherd lideravam o elenco deste filme. Com Jeff Bridges trabalhou em À maneira de Cutter (1981), e em 1985 assinou Louca por Si, Professor (1985), com Peter O’Toole no protagonismo.


Ronald Reagan e Ivan Passer

Já nos anos 90, orientou a sua carreira para a TV, e o seu último projeto cinematográfico data de 2005, Nomad – A Profecia do Guerreiro. Sobre esse filme, onde o seu nome está creditado a meias com Sergei Bodrov na realização, Passer explicou que devido a problemas climáticos e financeiros, as filmagens no Cazaquistão foram interrompidas, e apenas retomadas – já com Bodrov na realização – quando os irmãos Bob e Harvey Weinstein pegaram nele. 

Sobre a razão de ter filmado tão pouco ao longo do seu percurso, o cineasta explicou também à Film Comment que tal acontecia porque o cinema americano mostrava demasiada violência, algo que não queria explorar na sua obra: “Recusei-me a fazer filmes violentos. Considero isso perigoso. Vi a violência real durante a Segunda Guerra Mundial. A violência afeta algumas pessoas que não conseguem perceber a diferença entre a realidade e a fantasia. Por isso, afastei-me de 80% do mercado americano. Recebi várias ofertas, mas rejeitei. Numa altura em que ensinava em Sundance, Robert [Redford] ofereceu-me um filme sobre um índio americano que era tão violento que recusei. Não quero ver esses filmes, como podia fazê-los?“.

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