Muitas vezes existe uma visão romantizada em torno de certos cineastas incluídos no cinema de autor, ou arthouse, que na verdade não corresponde completamente à realidade dos factos, especialmente num mundo onde existem sempre «contas para pagar».
Um desses exemplos é o cineasta japonês Hayao Miyazaki que por ocasião da estreia do seu mais recente filme, Kaze Tachinu, e numa entrevista curiosa ao diário digital Asahi (Via El Universal), desmistificou alguns mitos, confessando de forma muito pragmática que «faço filmes como um negócio e não para cumprir um papel cultural»
Miyazaki, que aos 72 anos confessa ainda que já não se sente obrigado, como nos tempos de juventude, em fazer algo pelo mundo, explica a sua posição com a ideia errada que muitos têm em relação à rentabilidade dos estúdios Ghibli. «Alguns que se juntaram recentemente aos estúdios Ghibli parecem acreditar que conseguiram um emprego estável, o que é uma pura ilusão (…) se eu fizer filmes que não interessem às pessoas, a minha empresa cai a pique».
O cineasta recordou ainda que é contra a subcontratação de animadores no estrangeiro para baixar os custos laborais, assegurando assim também a qualidade do produto, ainda que se tenha a noção que ao se optar por esta estratégia, a sua empresa terá forçosamente de ser mais prolifera na produção de novos filmes.
Já sobre Kaze Tachinu (The Wind Rises), que marcou o regresso do cineasta à realização depois de em 2008 ter levado aos cinemas Ponyo à Beira-Mar, convém dizer que a fita conseguiu o melhor resultado do ano na sua abertura no Japão, estando atualmente a caminhar a passos largos para receitas na casa dos 60 milhões de dólares /45 milhões de euros.
Na obra, Miyazaki inspira-se em duas personagens reais para contar a história de Jiro: Jiro Horikoshi, um engenheiro aeronáutico conhecido por ser o criador do famoso avião de combate da 2ª Guerra Mundial Mitsubishi A6M Zero; e Tatsuo Hori, autor da obra Kaze Tachinu (The Wind has Risen).
Miyazaki adiantou ainda que espera que o filme não seja aproveitado pela extrema direita japonesa para principios patrióticos e que apesar de parecer contraditório um antibelicista como ele realizar um filme sobre o criador de uma máquina de guerra, isso acontece apenas pelo seu amor à aviação e ao desenho do Zero, como se fosse «um sonho bonito, mas maldito». «Eu sou um poço de contradições», admite.
A certo ponto, o autor admite mesmo que tentou comprar um Zero aos EUA. «Os aviões são a coisa mais bonita de se ver quando estão no ar. Eu queria ver um Zero a ser pilotado por um piloto japonês e não por um americano. O meu sonho era vê-lo voar por baixo dos cabos de alta tensão que estão próximos dos estúdios Ghibli. Mas a minha mulher disse-me para eu deixar de ser parvo e foi o que fiz».

