Penúltimo dia do Panorama. Apesar de ser sexta, as sessões começaram às 15h. Apressado, consigo chegar à justa ao início da segunda sessão, não chegando a ter ideia de quantas pessoas podem ir ao cinema sexta-feira depois do almoço e se poderá ter sido ou não má ideia ter organizado uma sessão para tão cedo. Perdidas foram duas curtas: Que Ânsia Distante Perto Chora?, de umas curiosas Produções Sem Nome, baseado sobre Pessoa e disponível online e Herberto, sobre um açoriano com mais de 90 anos que abriu uma fábrica de derivados de soja no Faial e cujo trailer se pode ver aqui.
Na segunda sessão do dia, três filmes que se focam sobre um protagonista e exploram a sua vida. Primeiro Teles, um marcador de campo de um clube de futebol pequeno, conta-nos a sua vida, que por vezes contrasta com as imagens que vemos. Este pequeno filme, com menos de 15 minutos, consegue nos seus momentos finais atingir uma profundidade e uma emoção que muitos filmes mais longos não conseguem. José Magro, o seu realizador, é alguém a seguir. Em As Partes e o Todo, Levi Martins mostra-nos, mais do que a vida deste, a sua interação com Humberto Machado, ator da companhia Fatias de Cá, as suas conversas e opiniões, gravadas ao longo de três anos. Não primando pela imagem, o filme poderá descrever com alguma fidelidade o seu protagonista, mas quem não o conhece pouco retira dele: as conversas são muito dispersas e as opiniões (apesar de menos polémicas do que pareciam querer ser) contestáveis. Possivelmente outra montagem poderia ser benéfica. Thierry é o esboço inicial de um documentário que, porque tudo na vida muda, acabou por não ser concluído. Isto segundo as palavras do próprio realizador Rodrigo Lacerda. De facto, sabe a pouco.
É um vislumbre curto de Thierry, um ativista dos direitos dos trabalhadores do sexo na Inglaterra. Thierry é uma daquelas pessoas que assume tudo o que é com um gosto e uma vitalidade que é desarmante e fica a vontade de perceber melhor todo o seu trabalho, mas a sua vida mudou e não foi possível concluir o documentário. Fica a imagem dele vestido de mulher numa manifestação de um sindicato, com um chapéu de chuva erguido alto, a cantar A Internacional em francês, um rasgo de cor no cinzento que o rodeia.
As três sessões seguintes foram cheias daqueles filmes que me fazem questionar o que faço. Dá-me ideia de que a forma de distinção social que os produtos culturais podem assumir, como dizia Bourdieu, atingem nestas áreas o seu ponto de maior violência simbólica. Que a tecnologia se torne tão complexa que muita da que nos rodeia nos pareça inacessível, é compreensível, mas que a arte o queira fazer? Parte da arte moderna (e incluo aqui o cinema) constrói-se sobre conceitos demasiado fixos na forma e esquecendo-se de que é dependente de um público. O problema é que a Arte acaba por conseguir sobreviver através de um mercado absurdo em que coisas sem valor real são imbuídas do valor simbólico de distinção, mas o cinema tem uma relação mais directa com o público e não lhe basta um único comprador para lhe pagar os custos. Assim, chamam Arte a algo que não o pode ser plenamente e condenam o cinema a este marasmo e o público a horas de aborrecimento. Com o problema de que o paradigma está montado de tal forma que qualquer crítica que se lhe faça faz com que se seja excluído dele, reduzido à incompreensão ou à falta de sofisticação, impedindo um diálogo verdadeiro. Como outsider (e sim, uso um termo da arte para atacá-la) sinto várias vezes estar a gritar que o rei vai nu, mas se todos os que fazem ou querem fazer parte deste mundo têm de agir dentro deste paradigma, como podem ouvir estes gritos? Só que o rei está morto, caiu e vai de arrasto há metros e metros e esta gente continua a comentar as beleza da roupa que este não tem. Com a excepção de dois filmes, os nove filmes das três sessões são todos incluídos neste mecanismo insustentado e insustentável que é o cinema moderno. Cinco longas horas a chafurdar na lama à procura de uma pérola que justificasse o tempo investido. Salvam-se Cinzas, Ensaio sobre o Fogo e Cinemática, o primeiro sobre os ciclos diários e anuais da vida rural, o segundo uma explosão de vida que lembra um quadro do Mondrian. É importante explorar o meio do cinema, mas sem esquecer isso mesmo: que é um meio. Um tema ou mensagem interessante fazem melhor cinema do que uma imagem ou técnica interessante. Melhores tempos virão.

