Panorama (Dia 7): Lisboa nas suas várias vertentes

(Fotos: Divulgação)

Depois de três dias na Cinemateca e no Teatro do Bairro, o Panorama voltou ao São Jorge. Este dia foi dedicado à cidade de Lisboa nas suas várias vertentes, desde a arquitetura até às pessoas que nela habitam e as actividades a que se dedicam.

A primeira sessão misturou filmes dos anos 60/70 com filmes acabados de fazer. O primeiro, Para Um Álbum de Lisboa de Faria de Almeida, autor de Catembe que foi mostrado na terça na Cinemateca com algumas das cenas que foram censuradas, mostra uma leitura sarcástica da Lisboa dos anos 60, do saudosismo dos velhos, das obras da rua, do trânsito, dos namorados e dos mirones. É um filme menor, muito datado e cujo sentido de humor nos parece agora um bocado estranho, mas que nos permite vislumbrar a Lisboa de outros tempos. Seguiu-se Abandonados de Júlio Pereira, uma sequência de fotografias sobre prédios abandonados que, falhando fazê-lo pelas imagens, usa a música para tentar perturbar-nos. Depois veio uma sequência de três filmes de alunos de escolas de cinema que mostrou o que é possível fazer com poucos recursos, pouco tempo e muita vontade. Santa Maria dos Olivais de Susanne Malorny é um filme curto que explora esta freguesia com a cadência da música, lembrando o formalismo dos anos 20 do século passado. Sem Anos é o resultado de três dias de entrevistas e filmagens, tentando documentar o bairro da Bica pelos seus diversos habitantes e pelas diversas fases do dia. O documentário está disponível no youtube para quem o quiser ver. O último, As Coisas dos Outros de Alexandra Corte-Real, é mais um filme sobre a Feira da Ladra, que costuma atrair os olhares de cineastas principiantes pela cor e pelo caos, mas que aqui ganha uma profundidade e um interesse inesperados pelas narrativas na primeira pessoa daqueles que vão para lá vender. Na conversa que se seguiu à sessão, a realizadora referiu que já há algum tempo que frequenta a feira e que já conhecia as pessoas e falava com elas com à vontade; essa familiaridade passa no ecrã e permite que nos dê uma visão única no que poderia ter sido mais um filme sobre um tema batido, mas se revela uma visão sobre a humanidade que está detrás do caos aparente. O último filme da sessão leva-nos de novo ao passado, neste caso a “Alfama, Bairro Típico de Lisboa”. É outro filme datado, mas que, ao contrário do tom de gozo do primeiro da sessão, assume uma posição mais participativa e humana, mostrando a vida de um bairro típico de Lisboa alguns anos antes da revolução de Abril.

A segunda sessão do dia reflete sobre bairros mais desfavorecidos. Em Rhoma Acans, Leonor Teles faz uma pesquisa autobiográfica sobre o que poderia ter sido a sua vida caso os seus antepassados não tivessem rompido com as suas raízes ciganas. Para isso, conta primeiro a história da sua família (fascinante e que merecia um filme próprio) e depois procura a história de alguém próximo da sua idade ainda inserido na cultura cigana. Este filme recebeu a Menção Honrosa do Prémio Árvore da Vida para Filme Português na edição deste ano do IndieLisboa, tendo perdido para Lacrau. Entre os dois, este é claramente superior. O segundo filme desta sessão é um filme complicado: tenta documentar a luta contra a destruição de um bairro da lata no concelho de Loures durante alguns meses. Deixando de lado a legitimidade da ocupação dos terrenos ou a da sua destruição, o filme é complicado na forma como está construído: a passagem do tempo não é clara e, com a captação de som a não ajudar, nem sempre se compreende o que está a ser dito pelas várias pessoas. Se há uma coisa que o filme faz bem é mostrar como pode ser aborrecida e desencorajante a luta, entre as burocracias, o tempo que passa entre respostas e as derrotas. Infelizmente, isso não se traduz em bom cinema já que acaba por tornar o filme também aborrecido e desencorajante. O facto de sermos metidos no meio da confusão sem contextos e não nos ser explicado o que está a acontecer também acaba por ser alienante e desinteressar o público.

Na última sessão os filmes espalham-se entre tantos temas quanto filmes, com o primeiro, Faixa Negra, a focar-se de forma ligeira sobre a prática de jiu-jitsu em Almada. Com menos de oito minutos, o filme faz o que pode para tentar reflectir sobre a prática e sobre o desporto, sem nunca conseguir atingir qualquer forma de transcendência. Está disponível online para quem estiver interessado. Entrado de Paula Preto é um filme sobre um espectáculo organizado com os presos do Estabelecimento Prisional do Porto, sobre as suas vivências. O filme acaba por ser demasiado fragmentado para se perceber o trabalho que foi feito, que acaba por ser melhor servido por uma reportagem efectuada pela RTP e disponibilizada em duas partes no youtube:  Parte 1 e  Parte 2. Já Johnson de Nuno Cibrão conta a história de Johnson Semedo no discurso do próprio. Se o filme funciona é por causa do protagonista, com uma história de vida, de perda e de redenção exemplar, um modelo que usa ele próprio agora na mudança da sociedade em que se insere, no bairro da Cova da Moura. Um filme inspirador.

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