Depois de um fim-de-semana intenso, o programa do Panorama acalma segunda, terça e quarta, com menos sessões e apenas na Cinemateca e no Teatro do Bairro. Tendo visto já os filmes que passam no Teatro do Bairro na edição passada do Doclisboa, pensei em seguir as seis sessões dedicadas ao Cinema Novo que estavam programadas para a Cinemateca.
A primeira sessão, Acto da Primavera de Manoel Oliveira, estava esgotada. Achei cómico que um dos nomes que acho sobrestimado, principalmente nas últimas décadas, tivesse esgotado tão rapidamente, comprei um bilhete para a segunda sessão. Eu sei que a Cinemateca tem duas salas, mas nunca tinha entrado noutra que não a que tem mais de 200 lugares e, apressado que estava com medo de perder a sessão, entrei por engano nessa sala. Só quando começou o filme me apercebi que estava na sala errada. Saí e segui as setas que apontavam para a segunda sala. Se é que se pode chamar “Sala”. Já vi salas de visionamento de distribuidoras maiores. A caixa de sapatos que a Cinemateca dedicou ao Panorama dá para umas estonteantes 47 pessoas. Assim é normal que as duas sessões tenham esgotado. Qualquer interessado nas sessões dos próximos dias terá de assegurar-se que compra os bilhetes com bastante antecedência ou arrisca-se a bater com o nariz na porta, como aconteceu a muitos.
A segunda sessão sobre o Cinema Novo era dedicada ao tema Máquinas Desejantes e era constituído por seis filmes de publicidade, daqueles institucionais que passavam no cinema como parte do programa, entre as notícias, a animação e o filme que se queria ver. O título Máquinas Desejantes refere-se a um conceito de Deleuze e Guattari de identidade esquizóide, mas que se vê aqui reduzido ao desejo de consumo das mercadorias que são anunciadas de forma indirecta nestes anúncios; mas não é nesse ponto que está o problema desta sessão. Nestes filmes, mais do que simples produtos, vende-se o conceito de progresso e de tecnologia sobre o qual se baseou o Estado Novo e que sujeitou milhões de pessoas à pobreza, mais do que publicidade, estes filmes são pornografia fetichista industrial. Não digo que queria um qualquer ato de contrição por parte dos realizadores, mas um simples reconhecimento de que desenvolverem as suas técnicas cinematográficas com este tipo de filmes era problemático. Ninguém lhes pode levar a mal por serem novos e quererem trabalhar e entrar num meio que tanto os atraía, mas depois de tanto tempo e em retrospetiva, podia-se ao menos assumi-lo. Se se pode defender a forma destes filmes, já os seus conteúdos são muito duvidosos e poder-se-ia ao menos ter falado sobre isso sem qualquer detrimento para os realizadores. Até Leni Riefenstahl foi perdoada e reconhecida como uma grande artista. Talvez na sessão 4 deste pequeno ciclo organizado pelo Panorama com a Cinemateca se consiga atingir essa profundidade, já que se dedica a filmes proibidos ou censurados.

