O terceiro dia do Panorama começou com manifestações, duas seguidas. A primeira Manifestação foi de Carlos Godinho, um trabalho felizmente curto centrado em conceitos interessantes, mas não explorados dessa forma. Seguiu-se Alex Campos García, com mais um filme sobre o 15 de Maio de Madrid: Quero-vos, Respeito-vos, Preciso de vocês – 15M de dentro. Se, como dizia Gil Scott-Heron, “a revolução não será televisionada“, mais uma vez me parece que não será o cinema documental o formato correcto para ela. Depois de anos a ver documentários sobre o 25 de Abril e o PREC, a Primavera Árabe e o 15M, mais uma vez fica a sensação que só o espectáculo sobressai nestas filmagens feitas a quente e que só o tempo nos poderá ajudar a compreender o que se passou e, mesmo aí, talvez a ficção se adapte melhor, podendo condensar personagens, acontecimentos e vontades de uma forma que nos permite mostrar mais do que algumas horas de documentário. A sensação que fica é que a manifestação é mercantilizada para poder ser vendida como um estilo de vida, com os acessórios e pilhas vendidos em separado, sem qualquer crítica ou compromisso. De fora deste filme que vemos agora ficam de fora as várias palestras, que permitem compreender melhor a situação político-económica que todos pensamos compreender, mas que está mascarada no ruído dos media, assembleias e grupos de decisão, resultados obtidos, vitórias e perdas. Fica só a intensidade para quem viveu ou filmou os acontecimentos e para aqueles que gostam de sonhar com nada de concreto.
A segunda sessão lida com a questão do retorno, a um local geográfico ou a uma época da vida, da dificuldade de encontrar uma pertença (casa ou música), mas com tons muito diferentes. O primeiro PDL-LIS (Ponta Delgada – Lisboa) leva-nos com o seu realizador Diogo Lima de volta a Ponta Delgada, onde viveu os primeiros 17 anos da sua vida. Apesar de levar o tema a sério, o filme não consegue a profundidade ou a conclusão que poderia ter, não deixando de ser um exercício interessante para um filme feito para uma disciplina na faculdade. Em Noite de Festa Nuno Costa Santos, um dos elementos das Produções Fictícias, com livros, peças e musicais em seu nome, volta também aos Açores, mas para procurar não a sua identidade geográfica, mas musical. Leva-nos pela sua vida, família e amigos à procura dos discos que coleccionou quando mais novo e que deixou para trás. O filme foi feito a seis mãos, com Tiago de Carvalho a ficar com o crédito de Realização, Nuno Costa Santos com o de Argumento e Nuno Miguel Simões com o da produção. É um filme desigual, mas com momentos muito bem conseguidos, quer pela música que também ouvi enquanto crescia, quer pelo humor.
A terceira sessão foi, como foi apresentada, a mais feminista. Os dois filmes que a compuseram não podiam ser mais diferentes, quer a nível de estilo, quer a nível de tema, mas havia um fio condutor que foi bem visto pela organização do Panorama e que faz com que juntar os dois numa única sessão fosse óbvio. Des-construindo Parte de Mim, de Patrícia Louro, retrata a dificuldade de superar uma relação de abuso ou violência, sem nunca cair no estigma ou no vitimizar as três mulheres que contam aqui a sua história. Um filme que pode (deve, talvez) ser visto por homens e mulheres, independentemente do seu passado, já que mais do que acusações procura a construção de género mais igualitária e consciente. Nas Outras Cartas ou o Amor Inventado Leonor Noivo parte das Novas Cartas Portuguesas das 3 Marias para uma pesquisa sobre o Amor e a Paixão, passando pelas Cartas Portuguesas da Sóror Mariana Alcoforado que as inspirou, pelo processo de censura por que passaram e saltando para a atualidade com entrevistas a adolescentes e adultos sobre as várias construções que permeiam a nossa sociedade. É um filme de uma sensibilidade desarmante e que consegue que, mesmo que não concordemos com tudo o que é dito, nos revejamos nele.
Na última sessão a veterana Margarida Gil apresentou O Fantasma de Novais, um filme encomendado pela comissão “Guimarães Capital da Cultura” sobre Joaquim Novais Teixeira, uma das grandes personagens desconhecidas do séc.XX português. Mais do que um documentário sobre Novais Teixeira, O Fantasma de Novais é um filme sobre a recordação deste e sobre a sua humanidade; mais do que nos dar os factos da sua vida, procura mostrar como seria conviver com ele. Para isso, à volta das entrevistas e das imagens de arquivo é montado um dispositivo ficcional onde um alter-ego da realizadora tenta capturar a essência de Novais Teixeira enquanto se apaixona por ela. No entanto tudo isto soa melhor do que o resultado: as partes de ficção não acrescentam nada ao filme e estão por vezes carregadas de uma simbologia não-acessível e esperamos sempre que voltem a falar de Novais Teixeira, que se revela uma personagem tão interessante que ficamos com a sensação de que se perdeu aqui uma grande oportunidade de poder, passados mais de 40 anos sobre a sua morte, mostrá-lo na sua grandeza, sem ferir a sua humildade.

