Dia 2 do Panorama mostra como o cinema português tem pernas para andar

(Fotos: Divulgação)

Ainda ontem foi publicado uma reflexão sobre a competição nacional do IndieLisboa, um texto que mostra a minha desilusão com alguma da produção nacional e hoje, no segundo dia desta edição, o Panorama mostra-me como o cinema português tem pernas para andar, até mesmo no caso de alguns exercícios escolares: dos 12 filmes exibidos, em 5 sessões, apenas 3 caíam na avaliação que tinha feito no texto publicado ontem.

O dia começou com a exibição de dois filmes sobre festas populares de Guimarães, encomendas feitas no âmbito da celebração da cidade como Capital Europeia da Cultura 2012 que pretendem reflectir-se sobre as realidades da zona. Com os únicos limites de orçamento e duração, os temas foram escolhidos e abordados pelos utilizador com toda a liberdade e vê-se nos dois filmes os olhares tão distintos dos realizadores. Em Em Honra de São Gualter (na imagem acima), Rui Simões faz uma montagem do caos que são 4 dias de festividades, onde o religioso se mistura com o pagão, procissões se revezam com corridas de animais, a feira noturna com corridas de cavalos, homens lutam na rua enquanto outros montam os carros para um desfile. A riqueza destas festas mostra-se num explodir de vida que Rui Simões consegue captar e que apenas a limitação de tempo impede de aprofundar. Já A Menina dos Olhos de Regina Guimarães, perde-se na sequência das imagens e, não fosse as entrevistas de casais que explicam a vivência da festa de Santa Luzía, tornar-se-ia pouco mais do que um conjunto de fotografias aborrecido. O momento final do filme, que a realizadora afirmou consciente depois da sessão, é de uma falta de respeito para quem participou no filme e para com a cidade que retratava, mais um daqueles momentos em que um “artista” confunde liberdade com má-educação, ainda mais porque é a vida destas pessoas que dá vida ao seu filme, não a sequência de imagens que esta filmou.

Na segunda sessão a ideia dos organizadores da mostra era reflectir sobre a arquitectura, mas o realizador do primeiro filme, Televisão, efetuou algumas alterações que acabaram por fazer com que este não encaixasse tão bem na sessão. O conceito base é simples: filmar da rua a evidência (som, luz, imagem) de pessoas a ver televisão em sua casa. Mais adaptado a uma série de fotografias (alguém na sessão comparava-o justamente com a série Homes at Night do fotógrafo americano Todd Hido), o filme poderia ter tido uma leitura arquitetónica, não fosse uma segunda parte em que o realizador se perde noutros conceitos menos bem definidos e conseguidos. Reconversão de Thom Andersen é uma reflexão sobre alguns dos trabalhos do arquiteto português Eduardo Souto Moura, alguns nunca construídos, outros abandonados, outros ainda já destruídos, com leituras de textos e entrevistas do arquiteto. O realizador é professor de teoria e História do Cinema na California e consegue fazer deste filme mais do que um catálogo, uma reflexão sobre a arquitetura e a vida das construções humanas, uma vivência orgânica que fascina Souto Moura e que procura explorar nos seus processos de reconversão de ruínas.

Reconversão de Thom Andersen

O urbanismo dominou a terceira sessão do dia, na sessão mais intensa do dia com 4 filmes. Os filmes eram muito distintos entre si, o primeiro, 5040, um projeto de escola que procura refletir sobre a cidade e como as ideias que se têm dela nem sempre coincidem com a sua realidade. Para isso, Inês Teixeira opõe leis, teorias filosóficas e construções teóricas a imagens da cidade, mapas e ilustrações. Se bem que se vê que é um trabalho académico, há no filme uma procura de reflexão e uma utilização dos recursos interessante e que revela o potencial da realizadora. Em A Luz da Terra Antiga, Luis Oliveira Santos parte à procura, baseado no livro de Duarte Belo sobre o espólio fotográfico do geógrafo Orlando Ribeiro, das paisagens retratadas por este e procurando reflectir sobre a passagem do tempo sobrepondo as fotografias com as imagens actuais dos locais, enquanto que o texto procura aprofundar esta reflexão e documentar o trabalho único deste cientísta. O trabalho de Luis Oliveira Santos é de uma sensibilidade curiosa, como se pode ver neste filme e no que disponibiliza no seu canal de Vimeo: “Why do you make films?”. Pode ser que algum dia vejamos uma longa sua. A Rua da Estrada é outro filme baseado num livro, neste caso de Álvaro Domingues, sobre a realidade da Estrada Nacional e a forma como se relaciona com as povoações e as lojas que se situam nas suas margens. É um filme cómico, mas também profundo na forma como pensa sobre a realidade destas pessoas num contexto moderno alienante, um catálogo de bizarrias e de realidade que ficam muitas vezes desconhecidas de quem passa ao lado delas.

A Luz da Terra Antiga, Luis Oliveira Santos

O último filme da sessão foi mais um filme de Regina Guimarães. Pequenos Teatros de Rua, e, se o primeiro era salvo pelas pessoas que nele participaram, neste falta-lhe esse elemento humano, ficando-se apenas por uma série de fotografias de qualidade duvidosa dedicadas às montras do Porto. Sim, pode ser vista alguma crítica à forma como a cidade é invadida por locais onde se compra ouro, monumentos à falta de limites de alguns perante o desespero de outros, mas parece mais uma visão nostálgica de dias melhores, acabando por perversamente glorificar a sociedade de consumo. O problema do filme é mesmo ter mais afinidades com fotografia do que com cinema, como a própria autora o reconhece ao chamar-lhe uma “videografia”.

A quarta sessão era dedicada à tradição oral, aos conhecimentos populares que se transmitem há séculos e constroem uma vivência com várias matizes e uma profundidade inesperada para quem associa sofisticação a uma urbanidade. O primeiro filme, Fome e Fartura é uma coleção de cinco filmagens em que os participantes contam ou cantam histórias ou ditados sob o tema da desigualdade social. São apenas cinco casos do material que Filomena Carvalho Sousa, investigadora responsável e realizadora do filme, e a equipa com quem trabalha coligiram e que vão disponibilizando online como parte do projeto “MEMORIAMEDIA”. É um projeto fascinante sobre uma cultura ameaçada pelos mass media que faz parte da História e da nacionalidade portuguesa. Com apenas doze minutos, soube a pouco, mas felizmente há um canal no youtube onde se podem ver mais. A seguir veio Anquanto La Lhéngua Fur Cantada de João Botelho, realizador português consagrado, sobre o Mirandês, especialmente cantado, e a terra em que este é falado. É um filme que o realizador procurou manter visualmente simples, procurando enaltecer a música. Para isso, Botelho foi buscar Gabriel Gomes, que fez parte de grupos como os Sétima Legião e os Madredeus, e Catarina Wallenstein que, para além de atriz, tem treino em música. Os dois percorrem a paisagem transmontana e vão cantar às aldeias e vender as melhores canções a quem as quiser guardar. Sobrepostas às paisagens filmadas, estão as paisagens sonoras que estes e outros músicos e artistas vão construindo. Na entrevista que fiz depois com o realizador, este referiu Michel Giacometti e o levantamento que este fez no século passado (e que trabalhou com Lopes-Graça para reavivar esta tradição oral e musical), não há dúvida que o seu filme se insere neste registo, se não na magnitude, pelo menos na beleza.


Anquanto La Lhéngua Fur Cantada
 de João Botelho

A última sessão do dia foi também, infelizmente, a pior. Até ao Outro Lado do Arco-íris é um exercício académico que não consegue ser mais do que isso e Montemor é um aglomerado de imagens sem sentido ou objetivo. Na programação do Panorama pode ler-se que esta é “uma sessão da inação, onde pouco ou nada acontece”. Serve de descrição, mas também de crítica.

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