Reflexão sobre a Competição Portuguesa no IndieLisboa 2013

(Fotos: Divulgação)

Chegado ao final de mais um Indielisboa e mais um ano em que filmes que considerei francamente maus foram premiados, sinto necessidade de formalizar os meus problemas com algum do cinema contemporâneo em geral e da competição nacional do festival em específico.

Há uns tempos preocupava-me com a primazia do visual sobre a palavra no cinema atual, mas durante esta semana tive uma revelação sobre o cinema contemporâneo português: mais do que estar a perder a palavra e a articulação verbal, não tem nada a dizer. Esconde-se em pretextos artísticos e na utilização do meio, mas na prática não tem nada a transmitir, nenhuma ideia a defender, nenhuma sensação a explorar. Mudo e apático, o cinema português parece ser um argumento de força para a teoria da não inscrição de José Gil (para os interessados, aqui está uma página com uma boa descrição dessa teoria).

Outra interpretação é a de que este cinema se inscreve numa corrente que se iniciou no séc. XX, baseada em conceitos de autonomia política e institucionalização da Arte, que foram explorados na América do pós-guerra e que esconderam, numa posição definida como apolítica, a ideologia capitalista que defendiam contra o Realismo Social soviético. Essa posição “apolítica” no cinema acaba por inscrever-se no mesmo registo a que se opõe: se Hollywood é propaganda, o cinema de “avant-garde” também faz parte dessa mesma propaganda. As caraterísticas desta “avant-garde” modernista (ou pós-modernista, é igual) são: atacar qualquer forma de narrativa (fragmentando e individualizando cada história e negando alternativas e modelos de resistência) e de cronologia (rejeitando a construção do tempo, permite que se apresente certas coisas como “eternas” e impede um conceito de futuro) e focar-se demasiado sobre o próprio meio e a forma, desprezando o conteúdo. Assim, nega as bases para uma crítica do sistema que defende e serve apenas para distanciar do público a elite artística, que pretende manter e justificar a sua existência a partir dela.

Depois de uma semana de competição portuguesa deficiente ou pretensiosa (ou, pior que isso, as duas ao mesmo tempo) começo a perguntar-me sobre a viabilidade do cinema português: se da dúzia de filmes de ficção anuais que produzimos, a maioria não pensa no público, como poderá alguma vez sobreviver? Preocupa-me que estes exercícios académicos, filmes de férias, filmes para amigos e outras formas não-comerciais de cinema estejam a condenar o cinema português a ter de sobreviver de subsídios que estão a ser cortados, limitando a entrada de novos talentos e valores e fazendo com que o público nunca venha a reconhecer o valor do cinema português. Se houvesse uma base de público para o cinema português, seria possível coexistirem os vários tipos de cinema, mas se o único produzido é o que impede a criação dessa base, como poderá sobreviver o que quer que seja?

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