Timothée Chalamet já amou desmesuradamente (basta lembrar Call Me By Your Name), já salvou planetas (Dune), já reinventou a fábrica de chocolate (Wonka) e deu corpo à revolução folk dos anos 1960 em A Complete Unknown. Agora joga pingue-pongue — ou melhor, ténis de mesa. Não como passatempo, mas como missão e vocação. Marty Supreme, filme que lhe valeu o Globo de Ouro de Melhor Ator de Comédia/Musical, afirma-se como um sucesso de bilheteira que avança de milhão em milhão na corrida aos Óscares de 2026, consolidando o riso nervoso como uma nova instância do humor contemporâneo.

Trata-se de um thriller cómico sobre a arte de resistir, evocando After Hours (1985), de Martin Scorsese, não apenas pelo tom febril, mas também pela herança nova-iorquina do seu realizador, Josh Safdie, formado numa cidade que o cinema de Taxi Driver ajudou a definir como microcosmo. Safdie é herdeiro de um cinema autoral que se afirmou nas margens do rótulo indie. Embora Scorsese trabalhe com estúdios, sempre filmou à sua maneira. Essa liberdade foi aprendida com John Cassavetes (1929–1989), figura central para Safdie, a par de outros autores que expandiram a ideia de autor ao explorar o mistério existencial da condição humana e a sua ligação à violência, como Abel Ferrara.

O nervosismo incontinente de Marty Mauser — o papel mais intenso de Chalamet até à data — deve muito a Bad Lieutenant (1992). Ferrara surge no próprio filme, num momento que captura a atenção do espectador sem esforço.

Mauser é inspirado num atleta real, Marty Reisman (1930–2012), lenda do ténis de mesa, mas Marty Supreme não é uma biografia. É antes um painel de época que apropria a sua persona para construir uma figura ficcional. Reisman é Reisman; Mauser é Mauser. Dois percursos distintos, unidos pela devoção à bola.

Embora tenha seguido agora sozinho, após a separação criativa do irmão Benny Safdie, Josh preserva a matriz estética que ambos desenvolveram desde 2002: personagens fora de qualquer eixo de repouso moral ou espiritual. Foi assim em Good Time (2017), com Robert Pattinson, e em Uncut Gems (2019), com Adam Sandler. Aqui, Safdie aprofunda um estudo sobre obsessão, com um orçamento de cerca de 60 milhões de dólares e receitas que já ultrapassam os 90 milhões. Chalamet confirma-se como forte chamariz de público, sobretudo quando aposta num registo mais desajeitado, quase patético.

Marty Mauser recorda Cosmo, o empresário interpretado por Ben Gazzara em The Killing of a Chinese Bookie (1976), de Cassavetes. Ambos vivem rodeados de excessos e encarnam uma variação da figura do perdedor americano, apesar de circularem entre pessoas que perdem tudo. Safdie filma almas encurraladas, pressionadas por armadilhas financeiras, criando uma épica urbana sem amarras, num cinema acelerado, trémulo, quase sem respirar.

A sua nova e taquicardíaca fábula sobre sobrevivência abraça a perseverança ao acompanhar um campeão de ténis de mesa que não aceita perder, gosta de seduzir mulheres casadas e vive numa década — os anos 1950 — igualmente avessa à derrota. Com a fotografia em ebulição de Darius Khondji, Safdie constrói o retrato de um herói torto, mas magnético. À sua volta gravitam figuras excêntricas como a socialite Kay (Gwyneth Paltrow), o gangster Ezra, interpretado por Ferrara numa composição memorável, e Rachel Mizler (Odessa A’zion), amiga de infância e amante de Marty, personagem que ancora emocionalmente o filme. Ela é terra, é casa, é abrigo — e transforma esta narrativa febril num verdadeiro poema cinematográfico.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
marty-supreme-um-cassavetes-a-220-voltsTrata-se de um thriller cómico sobre a arte de resistir, evocando After Hours (1985), de Martin Scorsese, não apenas pelo tom febril, mas também pela herança nova-iorquina do seu realizador, Josh Safdie