Se há coisa que não se pode acusar a macedónia Teona Strugar Mitevska é de falta de ousadia ou rendição estética aos academicismos do cinema e da comercialidade. Desde a estreia com How I Killed a Saint (2004), em plena Macedónia pós-guerra, a realizadora opta por expor feridas abertas sem qualquer estratégia de “paninhos quentes”. Num gesto frontal contra o conservadorismo, seguiu-se I Am from Titov Veles (2007), onde seguíamos três irmãs aprisionadas numa comunidade moribunda, e God Exists, Her Name Is Petrunija (2019), onde uma mulher desafia uma tradição religiosa exclusiva de homens, expondo no processo o machismo da Igreja e do Estado.
Com antecedentes como estes, poderíamos dizer que estávamos de alguma forma preparados para a sua incursão pela vida da Madre Teresa de Calcutá, nascida na Macedónia do Norte com o nome Anjezë Gonxhe Bojaxhiu. Só que não! Se tivéssemos de resumir tudo o que assistimos em Mother numa única expressão, ela seria rock’n’roll.
Acompanhando sete dias da vida da Madre Teresa de Calcutá, na época com 36 anos e à beira de sair do convento para formar a sua congregação, Mother está bem longe de qualquer fórmula hagiográfica, preferindo focar-se na obstinação de uma mulher em abandonar um espaço que não só a reduz a uma condição secundária — uma mulher num mundo regido pelo patriarcado — como impede efetivamente de fazer o bem pelos pobres e oprimidos que vivem fora do convento.
Por isso mesmo, a Madre Teresa de Calcutá de Teona Strugar Mitevska é menos santa e mais empreendedora. Alguém a caminho de se tornar uma espécie de CEO na luta contra a pobreza através da Congregação das Missionárias da Caridade (Missionaries of Charity), em Calcutá, Índia. Nesse processo e, mais uma vez, a cineasta mostra porque insiste na sua filmografia em mostrar mulheres que resistem, questionam e desobedecem. Madre Teresa foi isso — e uma frase sua – “Se algum dia me tornar santa, certamente será uma santa da escuridão” — veicula esse sentimento, que nos acompanha em toda a longa-metragem que a realizadora lhe dedica.
A recusa de Teona em suavizar a realidade, que já se via também no seu When the Day Had No Name (2017), faz de Mother uma busca pelo real atrás do mito. Nesse sentido, a sua abordagem estética e formal nunca cede ao realismo social ou ao cândido naturalismo, sublinhando-se que — na formação da sua maturidade cinematográfica — a realizadora continua a ter nas suas lentes cinematográficas o gene da rutura. Uma rutura que não significa desconstrução e caos, mas uma desconstrução-reconstrução, das personagens e das histórias, mantendo ambiguidades, evitando as certezas.
Em Mother, essa opção manifesta-se na recusa de nos oferecer uma narrativa linear ou um retrato santificado, optando antes por uma posição que coloca o espectador dentro da mente da protagonista, e até nos seus delírios, numa corrida contra o tempo – sempre movida por uma energia punk rock que serve de metáfora à liberdade feminina que Teona Strugar Mitevska exige a cada filme que assina
Com uma montagem que nos apresenta os sete dias até à sua saída do convento de forma regressiva, o foco está centrado nos preparativos da Madre para deixar alguém que a substitua no local. E tem de ser alguém que o Padre Friedrich (Nikola Ristanovski) sinta capaz de substituir Teresa no convento – tarefa complicada, tal a relação próxima que os dois têm, o que até já gerou rumores rapidamente rebatidos por Teresa. É na sua colega, Agnieszka (Sophia Hoeks), que reside a “substituta” desejada, mas as circunstâncias da vida, num jogo entre pecado e amor, colocam em xeque essa mudança, deixando a madre entregue a dilemas que vagueiam na triangulação entre mulher, desejo e fé, sendo fulcral tomar decisões sem hesitação.
Noomi Rapace — a Lisbeth Salander original na primeira adaptação da saga Millennium de Stieg Larsson ao cinema — agarra a personagem da Madre Teresa com a mesma intensidade física e emocional que marcou a sua carreira. Reconhecida pela capacidade de encarnar mulheres complexas e contraditórias, Rapace mergulha no desafio de dar vida a uma figura canonizada, recusando a imitação e procurando antes revelar a mulher concreta, oculta sob o manto beatificado do ícone: ambiciosa, vulnerável, contraditória e implacável.
Uma banda sonora com riffs de rock e até um ecoar dos Lordi com Hard Rock Hallelujah preenchem um objeto cinemático que prefere sempre uma linguagem sensorial e fragmentada à linearidade e previsibilidade.
E nisso, Teona Strugar Mitevska volta a colocar-se novamente no olho do furacão mediático, após a controvérsia em torno do seu Petrunija (2019). Ao trazer humanidade onde muitos veem sacralidade e virtude suprema, a realizadora desmonta uma imagem cristalizada da santa intocável para revelar uma mulher de carne e osso, atravessada por dilemas, capaz de inspirar tanto admiração como desconforto.



















