O mundo parou com a pandemia Covid-19, mas a guerra civil síria não e, no próximo ano irá fazer dez anos. Dez anos de martírio, sangue e muitos corpos caídos, num conflito que desembarcou (literalmente)  no continente europeu principalmente pela questão dos refugiados, que sem verdadeiras alternativas se expuseram a atravessar o Mediterrâneo à procura de um porto seguro.

Ao logo de todos estes anos, o cinema tem acompanhado o conflito preferencialmente através de documentários sofridos que relatam histórias de terror no território, como “The Cave”, “For Sama”,  “The Last Man on Aleppo”, “Retorno a Homs” ou “Água Prateada – Um Auto-Retrato da Síria”, mas também com ficções carregadas de tensão e horror, como “Na Síria“.

O imbróglio sírio, com grandes responsabilidades internacionais na luta pela posição estratégica do país, com U.E., EUA, Rússia, Irão e até Israel a aplicarem muitos jogos de bastidores, levou a uma das guerras mais sangrentas dos últimos anos, produzindo uma quantidade infindável de vítimas, entre mortos e deslocados,

Rana Kazkaz e Anas Khalaf, a dupla de cineastas deste  filme, viveu de perto o início do conflito, sabendo de antemão o privilégio que tinham entre mãos ao possuírem dupla cidadania francesa e norte-americana. “Não participamos das manifestações pacíficas que ocorreram no início da revolução síria. Embora tenhamos apoiado os manifestantes, não emprestámos a nossa voz. Estávamos com medo. Com medo de ser presos, torturados ou mortos. Embora sejamos sírios e vivêssemos em Damasco na época, crescemos na França e nos EUA. Tínhamos passaportes que nos deram o privilégio de sair do país quando quiséssemos.”, diz a dupla – marido e mulher – nas notas de produção do filme que teve a sua estreia europeia no Tallinn Black Nights. 

Um pouco como o protagonista desta história, ambos encontraram uma forma de mostrar as atrocidades e atentados a liberdade que marcaram o início das hostilidades, isto num conflito que não nasceu apenas em 2011, mas muitas décadas antes, quando grupos civis em protestos foram reprimidos por Hafez al-Assad, que governou o país durante trinta anos, e depois pelo seu filho, Bashar Hafez al-Assad. 

Já no filme anterior da dupla, “Mare Nostrum”, Rana Kazkaz e Anas Khalaf abordavam o conflito através dos seus refugiados, seguindo um pai que treina a sua filha de seis anos a sobreviver no mar, tendo em mente a travessia perigosa para a liberdade. Quatro anos depois, o ator Ziad Bakri – que desempenhava o papel de pai em nessa curta-metragem – assume novamente o protagonismo, desta feita no papel de um tradutor que depois de um deslize numa tradução é obrigado a exilar-se na Austrália.

No auge da Primavera Árabe, iniciada no final de 2010, e com ventos democráticos que levaram muitos acreditar na mudança, inúmeros protestos arrancaram no território, mas esbateram numa parede ditatorial que iniciou uma repressão sangrenta que levou a um conflito bélico entre duas facções, da qual os “parasitas” do Daesh se aproveitaram para criar um guerra em larga escala.

The Translator” situa-nos logo nos primeiros momentos na história, mostrando a luta pela democracia por parte do pai do nosso protagonista ainda no século passado, passando posteriormente para o período antes da guerra civil, no tempo dos protestos pela democracia. Um dos participantes nesses atos contra o regime de  Bashar Hafez al-Assad é o irmão de Sami Najjar (Bakri). É a sua eventual detenção – e desconhecimento do seu paradeiro – que vai levar Sami de novo ao território, numa busca desenfreada de todos os que deixou para trás quando conseguiu o exílio na Austrália.

A primeira longa-metragem de Rana Kazkaz e Anas Khalaf não deixa de ter alguns academicismos e simbolismos demasiado óbvios, mas rapidamente segue pelas linhas dos thrillers inquietos na linhagem dos filmes que marcaram o dito cinema de jornalismo em tempo de guerra, como “Salvador”, de Oliver Stone, “Debaixo de Fogo”, de Roger Spottiswoode, e até “Correspondente de Guerra”, de Alfred Hitchcock. É que na jornada do tradutor, ele vai igualmente reunir em vídeo várias imagens de atropelos aos direitos humanos, tentando que esses documentos de uma chacina em marcha cheguem a todo mundo, de forma a que exista – de alguma maneira – algum tipo de pressão internacional sobre Bashar Hafez al-Assad para travar a repressão.

E nos caminhos desta jornada tensa de um homem à procura de outro no meio de um ambiente de guerra pronta a eclodir, a dupla de realizadores e argumentistas estabelece um circuito de relações muito fechado de amigos e familiares de Sami, sempre com a temática do “abandono” como pano de fundo. É que nas palavras acima ditas pelos cineastas, sobre o não terem se manifestado naquele período, existe claramente uma mágoa – uma sensação – de não terem feito mais naquele período. Isso reflete-se seriamente na construção da personagem de Sami, um homem que lida permanentemente com o sentimento de culpa e remorso de ter abandonado o território e os seus familiares, deixando-os entregues a um regime brutal.

É esse sentimento de “culpa” que absorve completamente a personagem e o espectador, e que cria permanentemente uma atmosfera lúgubre que nos arrasta, não só nos campos da resistência e resiliência, mas igualmente para lidar com decisões duvidosas que tomamos no passado.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-translator-siria-chacina-em-marchaThriller inquieto que nos arrasta para uma permanente atmosfera lúgubre