Revelada na sua adolescência no thriller “Winter’s Bone” (2010), pelo qual concorreu ao Oscar de Melhor Atriz, Jennifer Lawrence teve Hollywood nas mãos nos tempos de “Hunger Games” (2012-1015), quando encarnou o arquétipo de heroína de ação, complementando ainda pelo papel de Mystique na saga dos X-Men. Chegou a ganhar uma estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood há dez anos, pelo seu desempenho em “Silver Linings Playbook” (2012). Porém, o fracasso das superaventuras dos mutantes da Marvel em 2019, com “Dark Phoenix” e sucessivas escolhas desastradas engessaram uma carreira que se antevia enorme. “Don’t Look Up”, rodado por Adam McKay, para a Netflix, foi um de seus poucos acertos, mas já apontava para um novo ambiente de trabalho – o streaming – e conduzia-a aos campos da comédia. É nesse lugar que constrói uma das interpretações mais ousadas (e sólidas) de uma trajetória profissional por vezes superestimada: “No Hard Feelings”. É um exercício de humor ácido, que evoca a picardia e a sensualidade de “Porky’s” (1982), um tipo de atração pop que não existe mais na era do politicamente correto.
Gene Stupnitsky, guionista e produtor do seminal “Bad Teatcher” (2011), desafia vários tabus da correção política para deixar a plateia gargalhar com liberdade, diante de uma narrativa de ferocíssima capacidade de fazer rir e de desatar os nós do moralismo. Sem medo algum do “cancelamento” (maior cancro cultural da contemporaneidade), “No Hard Feelings” segue o estilo de enredos nada pudicos dos anos 1980, tipo “Can’t Buy Me Love” (1987) e “Just One Of The Guys” (1985). Não por acaso, a estrela de “Ferris Bueller’s Day Off” (1986), Matthew Broderick, consagrado como Ferris Bueller, está em cena ao lado de Jennifer, a qual consegue imprimir tridimensionalidade à sua personagem, Maddie, indo da ferocidade à delicadeza, sublinhando as mágoas do passado.
Com dívidas até o pescoço, Maddie (Jennifer, hilária) teve o seu carro confiscado por um fiscal de trânsito cujo coração ela partiu. É da sua natureza a filosofia do “one night stand”, sem apegos românticos. Desesperada por dinheiro, ela recebe uma proposta de um rico (Broderick) para namorar o filho dele: um nerd solitário e sem amigos, Percy (Andrew Barth Feldman). Maddie tem 32 anos. Percy, 19. Mas ela recebe uma oferta irrecusável para se aproximar dele: vai ganhar um carro se desvirginar Percy. Com o veículo em mãos, ela poderá pagar as dívidas de hipoteca que tem. Mas existe algo em Percy que não faz dele o idiota que ela supõe. Algo que amolece o empedernido coração, sobretudo numa sequência regada a “Maneater”, de Daryl Hall e John Oates.
Apimentadas sequências de nudez e palavrões a granel fazem desta longa-metragem um objeto voador não identificado no céu das chatices que povoam a comédia americana atual. Céu este que já não reluz com milhões de dólares desde o sucesso de “Ted” (2012). O que Stupnitsky nos dá no seu belo filme é uma forma de rir “como antigamente”, num nível “The Hangover” (2009) da provocação. É uma pena que a direção de fotografia do dinamarquês Eigil Bryld seja excessivamente burocrática.




















