A alcunha “o popstar do real” não mobiliza Gianfranco Rosi: “Um documentário só se concretiza como expressão artística quando a câmara flui sem arroubos de estilo”, explica o cineasta ítalo-americano, nascido há 61 anos na Eritreia, em entrevista via Zoom ao C7. O rótulo que lhe atribuíram vem da conquista do Urso de Ouro por Fuocoammare, em 2016, e do Leão de Ouro que levou para casa, nos EUA, em 2013, por Sacro GRA, no qual abordava o quotidiano de Roma. “É da subtileza que se faz a poesia. Ser subtil é deixar a câmara ver sem ser vista, numa relação de confiança e honestidade entre quem filma e quem é filmado, de modo a revelar o que se olha, mas não se vê na totalidade”, explica o documentarista.
A conversa acima, mediada pela MUBI, aconteceu antes de Sotto le Nuvole, a longa-metragem mais recente do cineasta, estar concluída. Com ela, Rosi conquistou o Prémio do Júri no Festival de Veneza. Parte agora para a consagração sul-americana, na 49.ª Mostra de São Paulo, onde estreia na próxima segunda-feira, dia 20, na Sala Petrobras da Cinemateca Brasileira.
“Costumo recusar a ideia de ‘cinema de observação’, associada a filmes em que se capta o real sem intervenção, porque tenho um envolvimento total com os objetos que escolho retratar, a começar pelo facto de acumular várias funções técnicas para além da realização, como operar o som e enquadrar a fotografia”, disse Rosi ao C7, quando iniciava Sotto le Nuvole e lançava Notturno (2020) na plataforma Mubi.
Ao finalizar esse documentário supracitado (ligado ao Médio Oriente), Rosi filmou In Viaggio. O seu argumento debruça-se sobre o sentido simbólico das jornadas do Papa Francisco (n. 1936), que viajou por 37 países — do Médio Oriente às Américas, passando por África e pelo Sudeste Asiático — discutindo temas centrais da atualidade nas suas homilias: pobreza, natureza, migração, guerra e intolerância. Rosi parte dos sermões do Sumo Pontífice para analisar como as suas palavras refletem a realidade. Aí começou o períplo de Sotto le Nuvole.
“Assumi a responsabilidade de fazer um tipo de cinema que defende causas: no caso, dar visibilidade a pessoas de quem os media desdenham ou que enquadram em arquétipos”, disse Rosi ao vencer a Berlinale com Fuocoammare, um estudo sobre migrantes que lhe rendeu uma nomeação ao Óscar.
Na obra que agora apresenta ao público paulistano — cujo título significa “Debaixo das Nuvens” —, Nápoles enfrenta duas ameaças vulcânicas: o Vesúvio e os Campos Flégreos (Campi Flegrei). Entre tremores cada vez mais intensos, arqueólogos trabalham enquanto os moradores vivem ansiosos, assombrados pelo destino de outra cidade, Pompeia, arrasada pela lava no passado. O desafio do povo napolitano é contar com a eficácia dos serviços de emergência, que se empenham quanto podem, mas nem sempre conseguem responder a todas as exigências. A escolha de uma sala de cinema antiga como signo de um património cultural em erosão é uma das imagens mais tocantes de Sotto le Nuvole.
“A dimensão poética da narrativa documental é a liberdade de nos vermos diante de um mundo palpável, belo, mas com cicatrizes”, disse Rosi numa entrevista num festival no Catar. “Venho da tradição de Roberto Rossellini (pioneiro do neorrealismo). Tenho identidade italiana. A Itália tem uma tradição muito forte de documentaristas e também de realizadores que misturaram realidade e ficção, criando, entre outras coisas, a estética neorrealista. Foi um movimento que revolucionou o cinema nos anos 1940, buscando a veracidade como cerne estético. Não é exatamente dessa linhagem que venho, embora a respeite muito. Estudei nos EUA e formei-me no mundo. As referências deste ou daquele cineasta são úteis só até ao momento em que ligamos a câmara pela primeira vez: daí em diante, só existimos nós. Esse ‘eu lírico’ — que sou eu com a câmara — é alguém que tenta entender o que há de verdadeiro e de falso por trás de cada gesto e de cada palavra que registo. O que me permite compreender isso é o ambiente à minha volta. Os meus ‘protagonistas’ são os lugares onde filmo.”
A Mostra de São Paulo decorre até 30 de outubro.

