“Tinnitus”, o ruído do ‘extra-ordinário’

(Fotos: Divulgação)

Criado em 1954 com o intuito de servir de montra para a internacionalização do cinema das Américas de colonização ibérica, o Festival de Mar Del Plata, na Argentina, mantém uma competição latina, paralelamente à disputa pelo troféu Astor, que este ano, mesmo repleto de longas-metragens hispânicas, deu espaço nobre ao cinema brasileiro com a escolha de Tinnitus. Trata-se de um exercício de sinestesia, construído dramaturgicamente como um devastador estudo sobre perdas passageiras, reinvenções e o mistério que arranha a linha do chamado “extra-ordinário”.

É assim que a crítica vem chamando a corrente de filmes nos quais situações fantásticas extrapolam as constituições da Física, da Química e da Biologia sem apresentarem uma justificação, seja na ficção científica, seja no sobrenatural. É o que se dá com o ruído que dá título ao filme pilotado por Gregório Graziosi, laureado com dois Kikitos no Festival de Gramado. Apresentada ao mundo cinéfilo no Festival de Karlovy Vary, na República Checa, e exibida na competição de Biarritz, em França, a produção ganhou em terras de Gramado os prémios de Melhor Fotografia, dado a Rui Poças (laureado por um trabalho estonteante), e a de Melhor Montagem, confiado a Eduardo Serrano. Depois de uma ruidosa projeção na Mostra de São Paulo, o filme tenta a sua sorte agora no evento argentino.

Existe uma leva poderosa de filmes rodados antes ou em meio à pandemia, dos quais fiz parte, que estão a encontrar o seu lugar no mundo, neste momento, como é o caso de ‘TInnitus’, que expõe o interesse de uma nova geração de criadores pela tradição do cinema brasileiro”, diz o ator Antonio Pitanga, ao C7nema, referindo-se a seu papel de destaque na fita.

Realizador de Saba (2007), Mira (2009) e Obra (2014), Graziosi agora evoca mitologias aquáticas. Ele escolheu Pitanga para viver Inácio, um curador que desenvolve Tinnitus (um ruído contínuo que afeta os sentidos) após o falecimento da sua esposa japonesa, companheira de uma vida inteiro. No enredo, Inácio terá um papel crucial na vida da protagonista, Marina Lenk (vivida por Joana de Verona), que é uma experiente atleta de Saltos Ornamentais. Aterrorizada por uma súbita crise de um zumbido insuportável, ela despenca da plataforma mergulhando nas profundezas do seu próprio corpo. Afastada do desporto que ama, ela troca a perigosa e desafiante plataforma de saltos por uma pacata vida no aquário, onde trabalha fantasiada de sereia. Mas será que é possível escapar da loucura, quando o medo se esconde dentro de seus ouvidos?

Marina troca o desafio de saltar no ar, a dez metros de distância da água, observada por um estádio lotado, para prender a sua respiração embaixo d’água e se apresentar para poucas crianças, dentro de um tanque. Queria que o sereísmo fosse importante também para as outras duas funcionárias do aquário, interpretadas pela Mawusi Tulani e pela atleta paraolímpica Jessica Messali. Existe algo mágico em ver a performance delas dentro da água, procurando alternativas para a falta de público, inspiradas por uma sereia parisiense”, disse Graziosi ao C7. “Parece-me assustadora a ideia de que o terror pode se esconder dentro de você, como algo de que não se pode escapar. O zumbido é o contrário do silêncio. É uma forma de surdez, que se manifesta através de ruídos de diferentes frequências e volumes. Para alguns pacientes em crise, pode atingir níveis altíssimos.É impressionante como São Paulo é uma cidade barulhenta, vivemos aqui habituados a uma sonoridade perturbante. Milhares de pessoas sofrem com Tinnitus não diagnosticado ou algum grau de perda auditiva por aqui”.

À frente da fotografia, Rui Poças elogia a proposta sinestésica de Graziosi. “É para mim um privilégio fazer também parte da aventura do cinema brasileiro contemporâneo”, disse.

O 37º Festival de Mar Del Plata segue até ao dia 13 de novembro.

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