A solidão é o ponto cardeal do cinema de Kôji Fukada

(Fotos: Divulgação)

Uma das cidades que mais regularam os índices de natalidade no Japão nas últimas duas décadas, Nagi conta hoje com cerca de 6 mil habitantes. Fica a norte de Okayama, uma região mais movimentada. Atrai turistas pela beleza das suas montanhas — ou pelo menos atraía… até 14 de maio deste ano, quando se estreou como vedeta cinematográfica no Palais des Festivals de Cannes. O local é cenário e personagem de Nagi Notes, de Kōji Fukada, em competição pela Palma de Ouro.

Na trama, Yuri, uma arquiteta divorciada, visita a ex-cunhada Yoriko, uma escultora que vive na vila de Nagi. A estadia, inicialmente pensada como uma pausa, toma um rumo inesperado quando Yuri aceita posar para ela. Ao longo das sessões, os silêncios enchem-se de memórias, e um laço profundo, há muito enterrado, ressurge entre as duas mulheres. Longe da agitação de Tóquio, Yuri deixa-se conquistar pela suavidade do quotidiano rural e pela vida dos habitantes. Os dias passam como se algo, ali, a convidasse a ficar.

Esse desejo está no centro da conversa de Fukada, realizador de Harmonium (2016) e Kantai (2010), com o C7nema.

Quais são as principais características culturais de Nagi?

Tóquio dá-te mais opções para circular, com os comboios, o metro. Nagi é mais difícil para os grupos vulnerabilizados pela sua orientação sexual. E tem menos salas de cinema. Isso é mau. Contudo, um lugar com imensas restrições consegue oferecer liberdades que não existem numa cidade grande. Vivi por cerca de um ano lá e vivenciei essa sensação de ser livre, mas de ver restrições.

Acerca das experiências artísticas que Nagi Notes mostra, ao retratar o universo da escultura e da pintura, que olhar”livre” o seu filme procura?

O processo de criação de uma obra de arte é um ato em alta definição de observação do mundo. E fazer arte é parte da vida cotidiana, embora um senso de espetáculo nos leve a crer que não. Por isso, meu foco não está em obras acabadas, mas, sim, em obras em fase de construção.

Nessa relacão com a arte, qual seria a sua conexão consciente com o próprio cinema, sobretudo alguns dos marcos do cinema japonês?

Sou influenciado pelos realizadores que fizeram da câmara um objeto de presença transparente na nossa percepção da arte audiovisual, como Yasujirō Ozu e Mikio Naruse. Só não me colocaria nunca ao lado deles. São artistas que transcendem. Apesar da transcendência de que fala, Ozu e Naruse conectavam-se com os espaços que retratavam, e faziam deles corpo vivo.

Que corpo seria Nagi na sua longa-metragem?

Um organismo no qual cidade e campo se contrastam, mas se combinam. Escolhi um único ambiente geográfico por essa contradição.

Num espectro geopolítico, que cenário se desenha no seu roteiro?

A minha narrativa lida com as microfísicas inerentes a uma sociedade patriarcal, com opressão, com um modo de invisibilização de indivíduos vulnerabilizados pela intolerância.

Que lugar cabe à solidão na sua Nagi?
A solidão é o mote de todos os meus filmes. Observo o Japão em busca do que nos torna menos solitários.

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