Transformada em êxito nas rádios em 1982, com 1,5 milhão de discos vendidos, a canção Fuscão Preto, na voz de Almir Rogério, inspirou um filme homónimo, em 1983, e percorreu diversos meios, mas nunca com o grau de passionalidade que alcança em Vulgo Jenny, apresentado na Mostra de Tiradentes. Nele, esse hino automobilístico do desejo é executado, numa matriz documental, por violeiros e cantadores de rua, sem uma ligação aparente de causa e efeito com o enredo da produção goiana que abriu a competição Aurora do festival de Minas Gerais, em 2026. A execução do êxito de Almir serve como vector do real, um entre muitos, numa ficção pontuada por hibridismos com o documentário e por pontos de vista narrativos capazes de esbater limites entre memória, fabulação e vivência.

Responsável pela produção executiva, pela realização e pelo argumento, inspirado na prosa Memórias do Submundo, de Marco Coimbra, a cineasta Viviane Goulart estrutura Vulgo Jenny como um relato de reinvenção e afirmação de uma mulher, Dani. Ela foi vítima dos abusos de uma relação tóxica. De imediato, essa figura, real, dirige-se ao público para dizer quem é e no que se tornou: “Prazer, eu sou a Dani. Vocês devem estar a perguntar-se como me tornei a Jenny. Vou contar-vos.” A partir daí, o seu alter ego, Jenny, vendedora ambulante de pipoca doce e banana, interpretada por Juliana Dalle, de carisma ímpar, apropria-se da câmara num relato que evoca Catherine, interpretada por Jeanne Moreau, em Jules et Jim (1962). A protagonista goiana é libertária como a diva de Truffaut, sem receio de gravitar por vias tortuosas, conduzindo passo a passo a caminhada das personagens masculinas ao seu redor.

Nada funciona de forma linear na montagem de João Batista Silva, que avança ora por paralelismos, ora por vias transversais, ora pela circularidade, como se observa na figura de uma mulher a correr nua pelas ruas, que inaugura e encerra o filme. A forma de montar essa geometria da trivialidade recorda a estrutura adoptada por Wim Wenders em Os Belos Dias de Aranjuez (2016). Há muito de Wenders, e até do seu melancólico Paris, Texas (1984), no olhar de Goulart sobre Jenny, que se afirma à custa de muita dor. Uma longa sequência de um jogo de snooker disputado apenas por mulheres ilustra a força feminina que a cineasta celebra.

Em Os Belos Dias de Aranjuez, um homem e uma mulher entoam os relatos de um casal, entre amores e desilusões. A dado momento, deixa de ser claro o que pertence ao casal narrado e o que pertence às próprias intérpretes, na fusão entre a performance e o vivido. Em Vulgo Jenny, chega-se a um ponto em que a Dani da vida real já não parece deixar qualquer resíduo em cena, pois o exercício de escrita de uma vendedora de garapa e pastéis com aspirações literárias, Marcão, interpretada por Marco Coimbra, parece contaminar o que nos é narrado. Marcão é uma das figuras que se fascinam por Jenny. Frita iguarias durante o dia, ao mesmo tempo que extrai o sumo da cana numa moenda. À noite, escreve o que viu no asfalto, ou acredita ter visto, ficcionalizando crónicas sobre como a rotina pode ultrapassar a própria inércia.

Em troca de cigarros e cerveja, escuta Jenny e deixa que ela explique como se move num universo ilícito ligado à droga. Gravita entre a contraventora Primo, interpretada por Fred Praxedes, e a sua cúmplice, Rato, interpretada por Allan Jacinto Santana, batedora de carteiras com ar de perdedora.

Oscilando entre o literário, o concreto e o imaginado, Goulart constrói uma epopeia de marginalizadas que conhecem a medida exata dos seus limites e, no caso de Jenny, dos seus encantos. Ela é a Nastassja Kinski de um Goiás mundo-cão, de sorriso inabalável e fome de sobreviver. É uma anti-heroína que subverte opressões de forma pícara, num filme que contagia plano a plano pela sua engenharia dramática audaz.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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