Um dos realizadores mais interessantes do cinema belga atual é Fabrice Du Welz, responsável pela chamada trilogia das Ardenas, que inclui “Calvaire”, “Aleluia” e “Adoration”, além de filmes como “Inexorable”, onde nos levava num jogo de mentiras e obsessões com forte influência nos thrillers eróticos dos anos 90.
Regressando a Veneza 16 anos depois do seu “Vinyan” lá estrear, Du Welz procura iniciar uma nova trilogia com o seu mais recente projeto, “Maldoror”, que será exibido fora de competição no Lido. Encarando, neste primeiro tomo da eventual trilogia sobre os “fantasmas belgas”, o tristemente célebre “Caso Marc Dutroux” – assassino e violador que liderava uma rede pedófila que sequestrava crianças-, Du Welz pega inspiração em “Zodiac” de David Fincher e “Era uma Vez…em Hollywood” para dar um olhar muito próximo sobre um caso que acredita “ainda não estar encerrado”. Mostrando em “Maldoror” a forma como as crianças eram raptadas e os procedimentos policiais para as encontrar, Du Welz foca a sua atenção num polícia, Paul Chartier (Anthony Bajon), que entra numa espiral obsessiva para resolver o caso.
Estivemos à conversa com Du Welz sobre este filme visceral, o primeiro de um conjunto de filmes que tem como próximo capítulo uma visita ao Congo e aos tempos coloniais.
O que o levou a fazer um filme em torno do caso Marc Dutroux e que impacto esse caso teve na sua vida e na Bélgica?
Tinha 20 anos quando a história real aconteceu. Era mais novo e ingénuo. Na minha cabeça, fui levado a pensar que os adultos sabiam o que faziam. Que sabiam a diferença entre o bom, o mau e o mal. Que existia a polícia, a justiça, etc, para lidar bem com as coisas.
Como tinha a ambição de ser realizador, claro que pensei em fazer um filme sobre isso, mas não tinha as ferramentas, a experiência ou a maturidade para o fazer. Era uma história gigantesca, muito além do meu entendimento. Mantive sempre a ideia na minha cabeça de fazer um filme sobre o caso e quando o Covid chegou pensei que era a altura.
Por outro lado, uns anos antes, quando vi o “Era uma Vez… em Hollywood” do Tarantino houve um clique em mim. É um filme que à sua maneira reinventa a História. O filme fez-me pensar que poderia reinventar algo para mim e para o povo belga. Esta história do Dutroux não está encerrada. Tudo ainda está em aberto. Houve um simulacro de justiça, mas a justiça não foi realmente feita. Sabes, quando decidi entrar nesta história encontrei muita hostilidade, especialmente na Bélgica. Mas sinto que é meu dever como cineasta, com a idade que tenho e experiência que adquiri, abordar uma história que vai além do meu conhecimento e entendimento.

Li na Wikipedia que uma grande parte da população belga carrega no apelido o nome Dutroux e que muitos pediram mudança de nome depois do caso. Quão ferida ficou a sociedade belga com este escândalo?
É muito importante confrontar os fantasmas e o trauma. Não sou um político, mas um cineasta, por isso encarei esta história através da ferramenta que é o cinema. É um filme que, acima de tudo, é para os belgas e especialmente para os de Charleroi. Foi feito para eles terem um reflexo do seu trauma no grande ecrã. Esta história é tão tristemente belga que destruiu e rebaixou toda uma comunidade. Não consigo confirmar acerca dessa mudança de nome, mas tenho consciência que esta é uma ferida muito profunda no país. E não tenho dúvidas que deve ser muito difícil carregar esse nome.
Não quero falar muito sobre essa besta, mas o Dutroux tornou-se como o papão. Um papão que a justiça tratou isoladamente. Se conheceres o caso, sabes perfeitamente que há uma rede pedófila, com pelo menos três pessoas, conectada a ele. Não sou pessoa de ver complôs em todo o lado, e toda a investigação que eu e o argumentista fizemos passamos para o cinema. Mas existe em nós uma clara sensação de que as coisas não acabaram ali. Por isso, como cineasta e cidadão, senti que era meu dever falar do assunto.
Uma das coisas que saem obviamente do seu filme era a má coordenação policial, como diversas forças da lei a não comunicarem e trabalharem em conjunto. Esse caso teve impacto na reorganização das forças policiais do país?
Sim, este caso contribuiu para a Bélgica se tornar um país federal. O filme começa em 1995 e nessa altura conseguimos ver que a Bélgica ainda não é federal. Tínhamos três forças policiais diferentes que não se comunicavam entre si, o que levava a falhas de informação. Além disso, competiam também entre si. Eles sabiam que o federalismo ia chegar, mas não quando. No final do filme, já em 2002, a Bélgica tornou-se um país federal. E a maioria dos policias que lidam com o caso do Dutroux foram promovidos na década de 2000. Foi um verdadeiro circo. Eu e o argumentista tentamos recriar as diferentes comunidades que existiam, pois quem sofria mais com isto eram os mais modestos, a classe trabalhadora.
De certa maneira, anos depois, voltamos a ter um caso parecido, o de Jeffrey Epstein onde temos a sensação que há muito mais, uma rede gigante, além dele e da sua comparsa declarada….
Epstein tinha o mesmo objetivo, mas a articulação dos dois casos é bem diferente. No caso do Dutroux, eles atingiam a classe trabalhadora, os mais pobres. Se, por acaso, tivessem, por exemplo, raptado uma jovem da classe mais abastada, a história teria certamente outro rumo e desenvolvimento.

A figura do polícia obcecado em encontrar a verdade tem longa tradição no cinema. Recentemente vimos algo semelhante, com desenlace diferente, na “A Noite do dia 12”, do Dominik Moll. Como trabalhou essa personagem e porque escolheu o Anthony Bajon para esse papel?
Acho o Anthony Bajon é um ator muito promissor. Pela sua cara, vemos que vem de um background muito específico. Ela não provém da nobreza do cinema francês e nota-se que é alguém com um espírito muito popular. Queria fazer um filme popular, mas com isso não quero dizer que fosse comercial. Sinto muitas vezes que os autores que frequentam os grandes festivais de cinema estão desconectados com o popular, coisa que existia muito nos anos 50, 60 e 70. Hoje em dia vemos muitos cineastas fazerem filmes para si próprios, para a sua classe social. Acho que os tapetes vermelhos trouxeram um certo elitismo. Por isso, quis fazer um filme que se sentisse real e autêntico. O Anthony era tão intenso que para mim foi óbvio trabalhar com ele.
Quanto à personagem e à sua criação, claro que é muito cinematográfica. Mencionaste o polícia do filme do Dominik Moll, mas há muitos mais. O David Fincher também criou personagens assim, que se isolam e dão em loucos em busca da verdade. O Serpico tem de encarar o diabo, por exemplo. Sou um realizador, e sei que é um cliché, mas queria confrontar-me com alguém assim, mas sempre que sentia autêntico. Queria que o espectador visse uma pessoa, não um ator.
Sempre trabalhei em filmes com factos. Até no final do filme tentei isso, sem qualquer ideia política de direita ou esquerda implícita no sentido de justiça ou castigo, mas mais no confronto do bom, do mau e do mal. Quando encaramos um mal terrível, o que fazer? É uma questão muito intensa…
Em oposição temos o Sergi Lòpez num papel assustador. Como trabalhou este vilão?
A personagem do Sergi Lòpez, o Marcel Dedieu, é uma ferramenta ao serviço de algo maior. Um redneck belga. Para ele, raptar meninas é igual a roubar um carro. Trabalha para alguém com uma posição mais elevada na sociedade, mais rico.
Quando ofereci o papel ao Sergi López ele não fez nenhum julgamento da personagem, mesmo conhecendo detalhes do caso. Sabe, sinto que ele tem um apetite enorme para interpretar vilões. É um ótimo ator, mas quando interpreta papéis de vilão excede as expectativas. É enorme. O que pedia dele era igualmente uma autenticidade para interpretar esta personagem completamente amoral. Só no final o tentei aproximar a uma espécie de ogre.

Esteve há umas semanas em Locarno com um filme bem diferente deste: “La Passion selon Béatrice”. O que o movimenta no cinema? Tem uma plano ou é pura intuição?
Sim, são dois filmes bem diferentes, mas para mim estão muito conectados. O “La Passion selon Béatrice” é meio documentário, meio ficção, na senda do cinema de Pasolini, que é um cineasta que me diz muito. Todo ele é complexidade e ambiguidade.
Este é um filme de reflexão de tudo ser bom na vida. Como devemos aproveitar e celebrar a vida. Já o “Maldoror” é uma tentativa de reflexo do mal e do que é o mal. Mas o que é o mal? O Dutroux? É naquilo que a polícia se tornou? É a justiça ou a obsessão? Não sei responder.
O “La Passion selon Béatrice” é uma experiência formal. Tive acesso a financiamento, não tive qualquer limitação. Éramos uns 7 ou 8 em Itália numas férias, conhecemos imensa gente fantástica. Passamos muito tempo na escrita e reescrita do guião para se sentir real e bem documentado. Mas para mim, estes dois filmes são duas faces da mesma moeda.
E o que se segue? Tem um novo projeto?
Com o “Maldoror” nasceu uma ideia de fazer uma trilogia sobre os fantasmas belgas. Agora espero fazer um novo filme, que é bastante complexo e caro, sobre o Congo, mesmo antes de se tornar uma colónia belga. O rei Leopoldo dominou o Congo e dividiu-o em concessões para exploração da borracha com recurso e abusos aos indígenas. Foi uma loucura,. Foram 15 anos de conflito atrás de conflito. É a história de um jovem que chega lá e encara com isso. Tenho interesse nisso porque faz parte da História belga, mas ninguém tem noção do que aconteceu. Não existe a noção da brutalidade e violência envolvidas nesse processo.
O filme será também uma reflexão sobre o colonialismo, globalização e liberalismo. Não quero ser tedioso em mostrar esta história, mas estamos a investigar muito a época para chegar o mais próximo possível da realidade. E será a primeira vez que um filme belga vai falar deste tema.

