Foi Jacques-Yves Cousteau (1910-1997) quem ensinou o cinema a amar os mares, há 79 anos, quando decidiu dividir o seu tempo e coração entre a oceanografia e a realização, ao estrear-se como realizador com “Par Dix-huit Mètres De Fond” (1943), e ao celebrizar uma estética calcada na cartografia em “Le Monde Du Silence” (Palma de Ouro de 1956). As suas aventuras tingiam os ecrãs com uma sensação de inusitado. Mais do que isso, ele imortalizou-se não só pelos seus feitos, mas também pela sua persona singular, estilizada pelo seu gorro vermelho e uma sabedoria sobre os seres das profundezas.
Esse amor despertado por ele, foi depurado a partir da segunda metade do século XX e nas duas primeiras décadas deste milénio com experiências (de resultados díspares) como “Le Grand Bleu” (1988), de Luc Besson; “Waterworld” (1995), de Kevin Costner; e “Ama-San” (2016), de Cláudia Varejão. Cada uma delas, assim como as curtas e as longas-metragens de Cousteau, apostam na exuberância visual, mas também num quinhão de mistério em relação ao universo subaquático, construindo uma grande cartilha histórica do modo de se olhar para as águas e delas extrair catarses e transcendências. É uma pena perceber que o artista responsável por “Titanic” (vencedor de 11 Oscars em 1998) tenha ignorado esse saber cinematográfico ao retomar a franquia “Avatar”, 12 anos depois do filme original, apoiando-se numa homilia ambiental quase histérica, cujo excesso leva a uma perda da reflexão ecológica na sua génese. É frustrante perceber como um artesão de fina tecnologia como o canadiano James Cameron, já versado na geografia submarina com o precioso “The Abyss” (1989), possa ter desperdiçado um orçamento agigantado (cerca de 350 milhões de dólares) e um enorme parque digital em prol da sua nova longa-metragem, “The Way of Water”, para reduzir um potencial tratado sobre o património hídrico da Terra num videojogo. E um videojogo ultrapassado.
Em recentes declarações pautadas pela hostilidade, Cameron desdenhou da Marvel alegando não encontrar humanidade nas dramaturgias pautadas pelas BDs. Seja lá qual for a fonte do seu rancor, a mente (outrora) brilhante por trás de “Terminator” (1984) poderia pelo menos ter visto “Aquaman” (2018), de James Wan (um realizador-autor) para não gastar o tempo (e ponham tempo nisso, pois são 192 insossos e cansativos minutos) da plateia repetindo situações vistas – com muito mais esmero – na versão para o grande ecrã do Senhor da Atlântida. Ali, havia uma estrela em estado de supernova, Jason Momoa. Mais do que isso: existiam personagens, das boas. Nada disso existe em “Avatar”. O protagonista, Sully (Sam Worthington), carece de carisma. O que chega mais perto de um arquétipo sólido é o militar sociopata Quaritch, dado ao excelente ator nova-iorquino Stephen Lang. Mas até essa figura descamba para o tédio, numa repetição de diálogos rasos.
Inicialmente, “The Way of Water” insinua que será contado a partir do seu ponto de vista, numa ótica do Mal. Quaritch é ressuscitado num processo em que a sua mente deixa o seu cadáver e para no corpo de um Na’Vi, a população que habita a lua de Pandora. As instituições terráqueas têm o desejo de colonizar Pandora e transpor o que sobrou do nosso mundo envenenado pela poluição para lá. Para isso, a militar Ardmore (a brilhante Edie Falco, um dos raros acertos do elenco de Cameron) traz Quaritch de volta dos mortos, a fim de eliminar Sully. E tomem lá três horas e 12 minutos de caça ao tal herói, às filhas, filhos e à sua companheira, Neytiri (papel de Zoe Saldaña). É uma caçada sem adrenalina, com efeitos visuais que aceleram movimentos de modo a tudo parecer um jogo arcade dos anos 1980 ou 90.
Diante deste gasto de energia sem qualquer proposição filosófica de peso na espinha dorsal, a defesa ambiental feita por Cameron perde-se. Nem a opulência técnica habitual sustenta o interesse, uma vez que o guião não desafia a argúcia do público.
Cameron deveria aproveitar os hiatos longos que toma entre uma produção e outra para dedicar-se a projetos mas intimistas (leia-se de qualidade) que não se limitem à grandiloquência.



















