Trabalho nunca falta a Ansis (Davis Suharevskis), o protagonista desta história de época, que faz lembrar na forma “Forrest Gump”, ao seguir uma personagem caricata que atravessa diversos eventos da história da Letónia e as sucessivas opressões que o país sofreu, de Estaline a Hitler.
Pintor de cartazes, placas e outros elementos que tais, e percorrendo parte significativa de meados do século XX, “The Sign Painter” é uma tragicomédia agridoce assinada por Viesturs Kairiss que também nos conta histórias de amor e rejeição, de emancipação e fuga.
Ansis gosta da comunista judia Zisele (Brigita Cmuntová), mas é repudiado pelo pai desta, Bernstein, que o avisa solenemente que ela tem um noivo em Praga. Embora nitidamente interessado nela, e já no calor de algum despeito perante os judeus, ele acaba por envolver-se com Naiga (Agnese Cirule), a filha do farmacêutico, com quem começa uma relação. Voltas e voltas, os casais atípicos estão feitos. Ansis com Nagar, e Zizele com um alemão que se pavoneia na região. Os tempos mudam e a frente vermelha soviética toma conta do lugar. Em termos laborais, essas mudanças são boas para Ansis, que vai substituindo placas e direcções à medida que os novos regentes chegam, primeiro os sovietes, depois os nazis, nunca lhe faltando o que fazer.
Por estas alturas Zizele já estava ligada – até às entranhas – com o regime comunista, quando os nazis chegam e perseguem o seu povo no local. Ela acaba escondida por Ansis e esposa, que uma vez até tinham sido salvos por ela de deportação para a Sibéria.
Não há dúvidas que Viesturs Kairiss produz um espétaculo ímpar, que se afasta dos registos academicos habituais dos filmes de época. E fá-lo essencialmente por estranhas combinações de planos, um triângulo amoroso prontos a eclodir, e tudo embrulhado numa estética que transgride o género de filmes a que pertence, com reflexos também no estilo de quadros que a personagem vai pintando ao longo dos tempos. Outro dom da obra é a presença de um humor que nunca atropela o drama inerente, nem é demasiado óbvio para se repetir, ou soar a falso.
O resultado é um filme curioso, uma peça que encaixa na perfeição no cinema de Viesturs Kairiss, que já em 2016 tinha visitado a deportação massiva de letões nos tempos de Estaline no poderoso “Melanijas hronika“.















