Maior maratona de cinema francês das Américas, com 18 filmes mais uma homenagem à Nouvelle Vague espalhados por 89 salas de exibição de 42 cidades brasileiras, o Festival Varilux, coordenado por Emmanuelle e Christian Boudier, garimpou pepitas das jazidas de Paris, Marselha, Nice e mesmo da Bélgica, trazendo na sua edição 2020, presencial, o doloroso “Slalom”.
Selecionado por Cannes, a primeira longa-metragem de Charlène Favier – realizadora aclamada por curtas-metragens como “Odol Gorri”, de 2018, e “Free Fall”, de 2012 – o filme arrebata elogios por onde passa ao dissecar a microfísica do poder do desporto, em especial, nos rituais de amadurecimento da adolescência. Essa engenharia de controle é analisada a partir da relação entre uma estrela ascendente do esqui, Lyz (Noée Abita), e o seu instrutor, o outrora campeão, Fred (Jérémie Renier, o darling dos irmãos Dardenne).
No seu currículo pelas mostras da Europa, a produção ostenta o Prix d’Ornano-Valenti, conquistado em Deauville. Após uma incursão pelo Novíssimo Mundo, entre a Nova Zelândia e a Austrália, onde filmou “Is everything possible, Darling?” (2010), sobre a herança tardia do movimento hippie, Charlène destacou-se como uma cronista de espaços geográficos, analisando-os em analogia às transformações nos afetos das suas personagens. Numa conversa via Zoom com o C7nema, a realizadora falou sobre o seu projeto estético.
Para um filme sobre a adolescência, “Slalom” impõe-se pela quietude. Qual é o lugar do silêncio numa dramaturgia sobre jovens?
Trabalhei muito com a câmara na altura do rosto de Noée, várias vezes de modo silencioso, porque este não é um filme da palavra e, sim, da linguagem corporal. É uma história sobre as reações à transferência de sentimentos na hierarquia, numa relação de poder. E estamos em um contexto do desporto, onde o corpo é quem desenha a dramaturgia.
Na sua curta “Omessa”, uma mulher já madura mudava a sua vida ao detectar uma nódoa no peito, vendo a morte como um espaço de despedida. Em “Slalom”, o sangue menstrual da protagonista muda a sua rotina ao ser um indício do contrário do que se via em “Omessa”: é o florescer da vida. Mas, curiosamente, em ambos, existe uma linha autoral que parte do corpo das mulheres para falar de modos de reinvenção. Qual é o lugar do corpo na sua obra?
Fico feliz com a analogia entre os filmes, pois eles falam sobre a importância de se entender o corpo para sabermos quem somos. Eu, muitas vezes, vejo-me com estranheza. Fui uma jovem com dificuldade de fazer amigos. Este filme é sobre essa dificuldade e sobre o desafio de ligar com o que há de mais sombrio em nós.
Mais do que um filme sobre os rituais de passagem da adolescência – acossados por abusos de poder – e o clamor do sexo, “Slalom” é uma história sobre um espaço geográfico europeu, frio, rochoso e tomado pela prática desportiva do esqui. De que forma o espaço se transforma numa personagem?
Temos uma dramaturgia topográfica, que tenta cartografar os espaços e as sensações. Tento sempre entender como as pessoas reagem ao espaço em torno delas. Muitas vezes, as pessoas não prestam atenção à natureza à sua volta, mas aquele ambiente que está ao seu redor, um rio, uma montanha, diz muito sobre o seu estado, sobre o momento. Ou, pelo menos, pode vir a dizer. E é isso o que procuro: dessacralizar os espaços.
Como foi feita a composição de cores no trabalho de fotografia de Yann Maritaud?
Trabalhamos num registo de vermelho e de azul, para ressaltar uma narrativa que se calca em contradições. O azul é a instância romântica do encantamento de Lyz e o vermelho é o que existe de passional, de agressivo. “Slalom” foi um filme barato, de cerca de € 1 milhão, rodado em cinco semanas. Trabalhamos em esquema de cinto apertado com o orçamento, mas muito atentos ao lugar onde a câmara deveria estar e ao que esta escolha de lugar simboliza.

