Quando se entra no mundo do hip hop, da pobreza, das drogas e das relações amorosas entre pessoas de diferentes proveniências sociais é sempre preciso um jogo de cintura – maturidade – para não cair nos evidentes clichés, algo que a realizadora Nisan Dag não consegue de todo evitar neste “When I’m Done Dying”, ainda que o ritmo e força das palavras dos protagonistas incutidas no guião pelo rapper Da Poet transformem o filme em algo mais que apenas e só um “Riscos” turco no grande ecrã.
Viajando até ao fictício bairro de Karacinar (o local real das filmagens foi um bairro pobre no Distrito de Fatih, em Istambul), que procura representar múltiplas comunidades das cidades da Turquia com altos índices de criminalidade e um ambiente difícil para se viver (e sair dele), o filme traça o retrato de um jovem aspirante a rapper (Oktay Çubuk) que se envolve com uma DJ de classe mais abastada (Hayal Köseoglu), e que vai ter de lidar contra o vício da droga enquanto procura ascender na carreira de músico.
É refrescante ver este tipo de histórias pouco contadas sobre a pobreza e a juventude turca, o que de certa maneira demonstra que no meio de diversas particulares culturais, políticas e religiosas, há problemas semelhantes em todas as partes do globo, aproximando-nos desses mesmos povos que muitas vezes consideramos como distantes. A universalidade do Hip Hop, com o Rap como forma de denúncia musical de vidas pesadas e carregadas de sofrimento e perseverança, consegue unir essas mesmas experiências de autenticidade. Por aqui há ainda tempo para a jovem realizadora dar um toque de animação de cariz gótico em certos momentos “pesadélicos“, e em abordar temas modernos como questões LGBT e o conservadorismo social e a sociedade patriarcal que ainda dita as regras. Isso mesmo está explícito, ora na relação do nosso protagonista com o irmão, ora com a namorada, a quem chega mesmo a dizer que ela não devia confiar e dar conversa a mais nenhum homem porque eles não são de confiar. É aqui que reside o melhor do filme, nessa dualidade de modernidade Hip Hop grafitada na personalidade supostamente mais aberta culturalmente, mas que simultaneamente encontra uma ligação arcaica ao conservadorismo patriarcal que vê as mulheres como seres indefesos que precisam dos homens para tudo. No mais, o filme pinta ainda um retrato duro e didático sobre uma das drogas mais perigosas que apareceram no continente europeu: o bonzai. uma espécie de cannabis artificial que provoca extrema dependência e “bad trips” sistemáticas, que muitas vezes originam problemas cardíacos.
Assim, e no compito geral, Nisan Dag entrega ao espectador – especialmente os adolescentes e jovens adultos – um filme importante sobre a sua realidade social, mas é pena que para fazer isso o guião use e abuse de arcos narrativos e personagens previsíveis já muitas vezes vistas em outras paragens.




















