Das falas de Samuel Barclay Beckett (1906-1989) que mais e melhor traduzem “Un Triomphe”, a longa-metragem escolhida para inaugurar a versão pocket do Festival de Cannes de 2020, há duas a serem anotadas, estudadas e guardadas no peito. E merecem-no não só pela beleza e tridimensionalidade do que apontam, mas pela sintonia quase premonitória com que podem simbolizar o estado de coisas de um mundo que, à força da Covid-19, viu o seu mais prestigiado evento audiovisual ter que ser adiado às pressas.
Dizia o dramaturgo irlandês que “a arte sempre foi isto – interrogação pura, questão retórica sem a retórica – embora diga-se que apareça mais ao tratar da realidade social”. Há algo que ressoa neste dito na frase do atual presidente da câmara cannoise, David Lisnard, ao subir ao palco para apresentar a sessão inaugural: “O ser humano não pode morrer culturalmente”. Foi um pleito em prol da manutenção dos cinemas em dias de pânico em França, cuja Côte d’Azur deu uma aula de segurança ao cumprir todos (e mais) alguns dos protocolos de proteção ao coronavírus, com direito a detectores de temperatura e esterilizadores.
Foi um sinal da arte cinematográfica presencial reagindo, num momento da História onde tudo passou a ser doméstico, enclausurado na solidão dos nossos lares, à luz da “streaminguesfera“. Ocasião mais precisa para se falar (e se reler… e se assistir a) “À espera de Godot”, a pérola beckettiana por excelência. É daí que entra outro aforismo do Sr. Samuel, o: “Tenta. Fracassa. Não importa! Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor”. Cannes passou longe de um fracasso – ah se passou! – na sua (re)abertura mignon, porque tentou. Da mesma maneira como o ator e encenador Étienne Carboni, papel que deu a Kad Merad a hipótese de se mostrar mais do que um poço de carisma. É o papel da vida do argelino, guiado por um Emmanuel Courcol em serenidade máxima.
É este ator e realizador francês de 62 anos, conhecido pelo argumento do tocante “Welcome – Bem-Vindo” (2009), que conduz esta releitura de factos reais ocorridos às vésperas da morte de Beckett, quando uma trupe de teatro prisional, enquanto prepara a encenação de um “Godot”, foge do teatro, antes do espetáculo começar, traindo a confiança da justiça que concedera ao grupo um induto provisório. Merad – que levou cerca de 20 milhões de franceses aos cinemas, em 2008, com “Bem-Vindos ao Norte” – faz aqui uma construção da personagem avessa aos dispositivos de gargalhada óbvia, “chanchadesca” como se diz no português do Brasil, pendendo entre a tal instância do realismo social capturada por Beckett e um quinhão folhetinesco de drama que se transforma, que encorpa, conforme o filme avança. E avança para um desfecho surpreendente até para quem conhece os factos nos quais o realizador se baseou.
Há risos aqui e acolá, mais com o grupo que interpreta os presidiários (destaque para Wabinlé Nabié como Moussa), do que para Merad. E derramam-se lágrimas por cá e por lá, também mais com o contingente carcerário, destacando-se aí a cantoria de Bojko, vivido por Aleksandr Medvedev. No geral, até à primeira metade, “Un Triomphe” vai nessa toada bem equilibrada de boas intenções e suspiros, na linha “Hors Normes” (2019) e de “Amigos Improváveis” (2011), numa cartilha cada vez mais praticada em França, em filmes de médio porte com fôlego para gerarem explosões de popularidade. Mas, do meio para diante, algo sai da rota, quando o guião tateia o “low point” da curva dramática do seu protagonista.

Há uma mudança cozida em fogo lento até ferver nas borbulhas do desalento na parte final, que é quando Merad tem a chance de descascar todas as camadas que Courcol colocou em Étienne. Aí, a velha e formulaica receita de “To Sir, With Love” (O Ódio Que Gerou o Amor) vai para um caminho beeeem mais denso – e pantanoso – sem deixar o humor e a doçura fugirem. A edificação permanece, mas de modo agridoce, resultando num filme mais… adulto… do que se esperava, com uma guinada capaz de colocar as provocações Beckett em cena, de modo inteligente.
Com uma ocupação de apenas mil espectadores, diminuindo pela metade e mais um terço a capacidade total da sala batizada em homenagem aos fundadores do cinema, Cannes rasgou-se em aplausos no seu Lumière, no fim da projeção, numa demonstração, em uníssono, do desespero nosso de todos dias em relação ao futuro da arte que serviu de leme para a subjetividade do mundo no século XX. Mas foi um desespero elegante, à francesa. Amanhã chega “Beginning”, jóia da Geórgia laureada com a Concha de Ouro de San Sebastián, para garantir a continuação dos trabalhos.

