
“Complexo: Universo Paralelo”, exibido em sessão de gala no festival do Rio, mostra o dia-dia dos moradores de uma das maiores favelas do Rio de Janeiro.
O primeiro sábado (25) do festival foi marcado pela exibição do documentário português “Complexo: Universo Paralelo”, durante a mostra “Brasil do Outro”, sobre uma das mais violentas favelas do estado do Rio de Janeiro. A sessão, lotada no cine Odeon, contou com a participação do realizador Mário Patrocínio e o seu irmão, o fotógrafo, Pedro Patrocínio. Ambos passaram três anos pesquisando o quotidiano da comunidade do Complexo do Alemão na Zona Norte da cidade.
Antes da exibição a emoção tomava conta da plateia, formada tanto por artistas, quanto por pessoas da própria comunidade, entre elas alguns das personagens retratadas na histórias, que tem como ponto de partida a operação policial feita em 2007 em virtude do plano de aceleração do crescimento – PAC (programa que visa terminar com o domínio do tráfico em comunidades carentes).Um dos mais emocionados era MC Playboy – cantor de funk – , principal personagem da fita, além de ter sido o responsável pelo início do projecto, idealizado após a realização de um videoclipe dentro da favela.
A longa-metragem não traz nenhuma grande novidade para o público brasileiro, habituado com a realidade dessas comunidades, porém causará impacto para quem não conhece a dura vida dentro do complexo, onde tiros de metralhadoras, falta de saneamento e fome fazem parte da realidade. Além de MC Playboy, outras duas personagens apresentam este universo: Seu Zé, presidente da associação de moradores e que luta pela ajuda de autoridades para tentar melhorar a vida na comunidade, e Dona Célia, evangélica, catadora de latas, mãe de oito filhos.
Mário Patrocínio parece não querer tomar partido de ninguém, tentando interferir o mínimo possível na realidade dos moradores, porém essa “invisibilidade” acaba acarretando momentos delicados, principalmente quando dá voz aos marginais da favela, deixando a impressão de que os traficantes da região também fazem parte das vítimas da dura realidade. Mesmo não parecendo ser intencional, “Complexo: Universo Paralelo” acaba sendo conivente com o crime organizado, deixando a impressão de que o tráfico não é formado por bandidos, mas por protectores dessa sociedade, o que de certa forma segue o raciocínio de parte dos moradores, mas que nunca deve ser colocado como verdadeiro.
Mesmo assim o filme recebeu uma calorosa salva de palmas no final da exibição, mostrando que o público gostou do trabalho feito pelos dois portugueses.

