E para felicidade da plateia, a espera não foi em vão, mesmo após tantos anos longe das telas, Arnaldo parece não ter perdido seu estilo, marcado pela fusão entre grandes cineastas europeus dos anos 60 com temas populares e desconstrução narrativa do escritor Nelson Rodrigues. A história carrega em sua essência um clima nostálgico dos anos 40 e 50, época que coincide com a infância do próprio director, fazendo deste o seu trabalho mais biográfico. Este regresso ao passado fez com que as críticas sociais compartilhassem espaço com a emoção, pois agora o cineasta parece também interessado em olhar para dentro dos seres humanos, fazendo ode ao existencialismo Bergmaniano.
A fita apresenta um bairro carioca no período pós-guerra, usando o casal Marco (Dan Stulbach) e Sofia (Mariana Lima), e seu filho Paulinho (Caio Manhente, Michel Joelsas e Jayme Matarazzo em diferentes fases) como personagens típicas daquele espaço. O pai, um militar apaixonado, sonha em pilotar um jacto, a mãe deseja ser actriz de cinema, contudo, vendo seus sonhos não se confirmarem, o casal inicia um processo de autodestruição, tornando brigas e discussões cada vez mais frequentes. Em meio a isso e à chegada da puberdade, Paulinho – que poderia chamar-se Arnaldo – parece mais interessado em descobrir os fundamentos da vida e do amor, num mundo onde a dor e o sofrimento estão por todos os lados. Para tentar compreender essas questões, o jovem contará com a ajuda de seu avó Noel (Marco Nanini), um velho boémio, que constantemente sonha com os tempos da sua juventude.
No contexto de “Eu te amo” e ” Eu sei que vou te amar” somente este microcosmo bastaria para exemplificar toda uma sociedade, porém “A Suprema Felicidade” também apresenta outras faces dessa população como a prostituição, o homossexualismo e o papel da igreja. O excesso de informação, por vezes, faz com que fiquemos perdidos em meio de tantas idas e vindas. Mesmo assim, a longa apresenta alguns momentos marcantes, como na cena em que uma carroça cheia de mortos passa pela rua, remetendo ao sonho perturbador de “Morangos Silvestres”, e os tocantes diálogos entre Paulinho e seu avô.
Provavelmente “A Suprema Felicidade” será lido de diferentes formas ao longo dos anos, já que nada é conclusivo na história, méritos do cineasta/jornalista que deixou de lado a polémica, para investir em uma produção mais emotiva, e que apresenta na tela o Rio de Janeiro dos nossos avós da forma como eles contavam, mostrando que sua nova fase ainda pode render bons frutos.
Um belo início para o festival.

