Crítica do Motelx2010: ‘Survival of the Dead’ (EUA) por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)
 
 

George A. Romero esteve presente no Motelx para apresentar ‘Survival of the Dead, sexta entrega da saga iniciada nos anos 60 por ‘Night of the Living Dead’.

A história do filme passa-se numa ilha onde duas famílias poderosas dominam os zombies e criaram uma situação estável. Mas quando humanos começam a morrer misteriosamente, o conflito começa. A família O’Flynn quer destruir todos os zombies, enquanto os Muldoons acreditam que os zombies devem ser mantidos vivos pois vão encontrar uma cura.

Romero inventou o zombie cinematográfico nos anos 60 com ‘Night of the Living Dead’. Mas a parte mais assombroso deste clássico, não eram os monstros mas sim a luta pela sobrevivência. Os humanos que se fechavam numa casa cercada de zombies eram pluridimensionais, a sua luta pela sobrevivência era emocionante e os seus conflitos reais. ‘Night’ era um filme político, e o seu final é um claro manifesto anti-racista e o seu tom parecia de sátira à Guerra Fria.

Nos anos 70, Romero voltou com ‘Dawn of the Dead’, onde o mundo já havia sido conquistado por zombies e um grupo de sobreviventes esconde-se num centro comercial. Mas os zombies vão de encontro do shopping porque a sua moribunda memória associava o consumo a felicidade. ‘Dawn’ é uma obra de culto inquestionável: a crítica ao consumismo é evidente e a emoção é total.

Nos 80, vem ‘Day of the Dead’ onde a terra é dos zombies e os poucos que sobram, militares, tentam domesticá-lo de forma a criar uma solução para a extinção da humanidade. Com mais orçamento e muito ‘gore’, ‘Day’ é uma crítica aos avanços da ciência e à maldade humana.

Romero deixou os seus zombies em paz, e só voltou em 2005 quando os mortos vivos voltaram a ser moda a reboque de ’28 Days Later’ e ao remake de ‘Dawn of the Dead’. ‘Land of the Dead’ e depois ‘Diary of the Dead’ era filmes menores, mas mesmo assim mostravam que Romero tinha sempre algo a dizer nas suas personagens e nos seus zombies – sempre usar os mortos vivos para explorar a natureza dos homens que eles perseguiam.

Agora temos ‘Survival of the Dead’, onde Romero conta com um orçamento francamente modesto, e que se ressente no ‘gore’ que é escasso e na maquilhagem simplista dos zombies. Mas a surpresa (ou não) é que este Romero com menos dinheiro é tão criativo como o que revolucionou o terror de série B nos 60, 70 e 80.

‘Survival’ envolve dois grupos de humanos com ideologias diferentes. Uns defendem que os zombies devem ser todos eliminados, erradicados, porque são um perigo e uma ofensa moral ao descanso dos mortos. Outros defendem que devem ser mantidos vivos e ensinados a comer apenas animais, porque Deus proíbe o homicídio e os zombies estão, à sua maneira, vivos. Romero debate moral, eutanásia, suicídios e acima de tudo, explora a teimosia humana através dos dois protagonistas, dois velhos rabugentos de lados opostos desta barricada moral. As personagens de ‘Survival’ são completas e interessantes, o que é muito raro num filme de zombies.

Com mais humor que terror, mas com um bom ritmo e alguns sustos bem sucedidos, ‘Survival’ justificou a ovação de pé que Romero recebeu. Porque mostrou que um realizador de 70 anos consegue – ao sexto filme de uma saga sobre um tema tão explorado como os zombies – ser criativo e bem mais original que a maioria dos realizadores jovens que fazem filmes de terror. E isto sim é obra.

Pareceme que Romero tem demasiado a dizer e a brincar neste mundo de zombies que criou, e espero por mais.

 

O melhor: O debate moral e a teimosia dos protagonistas, que levam a uma grande gargalhada final.

O pior: Os efeitos são demasiado modestos, e o terror ressente-se.

A base: Os zombies são de Romero e ‘Survival’ é original e criativo como nunca se esperaria à sexta entrega. 8/10

 

José Pedro Lopes

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