Críticas do Motelx2010: ‘Triangle’ (Reino Unido) por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)

 

 

Veja ‘Triangle’ no festival Motelx no dia 3 de Outubro, pelas 19h00

 

Christopher Smith é uma das grandes promessas do cinema inglês dos 2000, e rivaliza com Neill Marshall pelo título de melhor autor do fantástico britânico da actualidade. As suas duas obras anteriores deram-lhe esse estatuto.

O seu primeiro trabalho ‘Creep’ era um filme de horrores passado no metro de Londres onde Franka Potente (‘Run Lola Run’) enfrentam um assassino monstruoso. Cheio de suspence e de sustos, o filme surpreendia com o sentido de humor bizarro que o seu vilão trazia, reminiscente da primeira aparição de Freddy Krueger no ‘A Nigthmare on Elm Street’ original. Já o seu segundo filme era uma desvairada comédia de terror, cheia de apontamentos ‘gore’ e críticas mordazes ao mundo corporativo: ‘Severance’ estreou no Fantasporto em Portugal e contava a história de um grupo de executivos que vai fazer um fim-de-semana de “Team Building” que acaba num banho de sangue.

À terceira, Smith fez check-out do humor e lança-se de cabeça no que pretende ser um filme não só assustado mas provocador do ponto de vista intelectual. ‘Triangle’ começa muito bem, com uma excelente gestão de factos que nos provoca uma enorme ansiedade: Jess é mãe de um filho autista e vai passar um fim-de-semana fora num barco com o namorado e uns amigos. Sai de casa com o filho, mas quando chega ao barco está sozinha e com um olhar distante. Ela entra no barco e parte em viagem, e quando lhe perguntam pelo filho era apenas responde que ele está na escola… num Sábado. A nossa mente vagueia todo o tipo de possibilidades (especialmente no meu caso, fresco de ter visto ‘Shutter Island’).

O veleiro é abalroado por uma tempestade, e quando os sobreviventes pensavam já não ter salvação, um gigantesco cruzeiro aparece no horizonte. Eles sobem para o cruzeiro mas este está totalmente vazio…

Mais não revelo sobre a história de ‘Triangle’ pois o filme é muito bem conseguido na construção de tensão na sua primeira metade. Interrogamo-nos onde estará o filho, porque Jess tem um ar tão incomodado, porque o barco está vazio e porque eles estão lá, vezes sem conta até o filme revelar os seus segredos.

Quando isto acontece, ‘Triangle’ surpreende. Apesar de ter uma das ‘scream queens’ dos 00s – Mellisa George entrou em ’30 Days of Night’, ‘Turistas’ e no ‘remake’ de ‘The Amityville Horror’ – o filme procura tudo menos o susto fácil. A sua história transformar-se num puzzle algo reminiscente do recente ‘Inception’ e a luta deixa de ser apenas pela sobrevivência mas também pela realidade.

Christopher Smith cria algumas imagens aterradoras (o monte de cadáveres repetidos é impressionante) e a edição do filme está cheia de apontamentos brilhantes. No entanto, esta segunda parte é por vezes desnivelada no seu ritmo pois a sua história cíclica torna-se previsível ao fim de algum tempo. E para pior, o seu não-final vem antecedido de uma recta muito morna em termos de emoção.

Nota muito positiva para Melissa George – a sua performance aqui está soberba. Ela consegue caminhar sempre na linha ténue de carismática e suspeita, heroína  e louca.

Mesmo que ‘Triangle’ fica a uns centímetros da altura de um grande clássico, sem dúvida confirma que Christopher Smith tem de ser recrutado urgentemente para salvar o cinema fantástico de Hollywood.


O melhor: Melissa George e as imagens criadas por Christopher Smith.

O pior: Um filme destes nunca consegue ter um fim satisfatório.  


Base

A base: ‘Triangle’ é tenso e imaginativo, mas tem um ritmo estranho na sua segunda metade. 8/10

 

José Pedro Lopes 

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