c7nema em Sundance: a tenebrosa viagem noir de Michael Winterbottom

(Fotos: Divulgação)

‘Que nojo’. Esta é a reacção natural e humana que se tem quando se assiste à lindíssima Jessica Alba – esse sex symbol do cinema contemporâneo – já com a cara numa lástima e o maxilar escarnado após Casey Affleck a ter espancado durante uns intermináveis 3 minutos.

Tudo isto e muito mais, numa verdadeira viagem aos infernos de um serial killer que é também xerife no Texas, se pode assistir em “The Killer Inside Me”, uma viagem noir de Michael Winterbottom baseada na obra de 1952 de Jim Thompson e que levou o cineasta pela primeira vez a filmar na América.

As audiências de Sundance estão habituadas a muita coisa, mas poucas vezes houve tamanha ansiedade em confrontar Winterbottom logo após o termino do filme.

O cineasta, que já fez viagens quase documentais com emigrantes ilegais em “In This World”, que acompanhou uma relação ao longo de 9 concertos – numa espécie de soft arthouse porn” em “9 Songs”, que já viajou ao futuro e até realizou obras de época, inevitavelmente teria de tocar no estilo noir, e pode-se dizer que a sua chegada ao género é uma pedrada, um verdadeiro martelo pneumático nas emoções do espectador que vê duas divas (Alba e Kate Hudson) das comédias românticas de cordel serem vítimas de um asqueroso serial killer camuflado de força da lei.

Que não restem dúvidas: estamos perante um filme brutal, doentio por vezes, roçando o nilismo e o exploitation tantas vezes criticado e vítima de discussões intermináveis no meio cinematográfico.

Mas o certo é que depois desta obra não somos os mesmos. Foi como ver Charlize Theron a transformar-se num monstro. Há muito de “Martyrs” ou mesmo de “Antichrist” na exploração depressiva das situações impensáveis. Aliás, a escolha das vítimas não é inocente. Nesta obra nada o é. E “nojento” será um dos adjectivos que irão ouvir mais quando assistirem a esta obra, que mais uma vez demonstra a versatilidade de Winterbottom e a imposição de um estilo ultra realista que sempre o acompanhou. Será que é o choque pelo choque? Será que as manifestações de violência são apenas uma forma de mostrar como é a sociedade no seu todo. Será que devemos nos focar apenas num caso particular?

Não tenham ilusões, este filme levanta mais questões do que fornece respostas. E quando estas são estimulantes, só podemos estar agradados, mesmo que os nossos olhos e mente se tentem desviar e afastar do pensamento tudo o que assistimos.

Lauren Boyd em Sundance

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