Em 2019 Mark Cousins esteve em Sevilha para, dois meses depois da estreia mundial no Festival de Veneza, apresentar o seu “Women Make Film – A New Road Movie Through Cinema” (Women Make Film – As Mulheres Fazem Cinema). Passados um ano e meio, entre os quais 15 meses de uma pandemia, a obra chega a Portugal e o C7nema resgata o artigo publicado na altura – uma entrevista que tentava perceber a exclusão das mulheres da indústria, o singular papel de Leni Riefenstahl e, de maneira mais geral, os novos rumos da sétima arte…
A obra segue a estrutura da “História do Filme – uma Odisseia”, trabalho anterior do cineasta também já lançado em Portugal. Tendo como tema o próprio cinema, o projeto, que levou quatro anos a ser concretizado, divide-se em 40 capítulos onde sobressaem-se os assuntos mais diversos – para além de contar com narrações de, entre outras, Tilda Swinton, Jane Fonda e Debra Winger.

Pelas suas 14 horas de material passam excertos de filmes de 183 realizadoras. Entre estas estão pioneiras (Alice Guy, Dorothy Azner, Leni Riefenstahl), nomes consagrados da história do cinema de autor (Agnès Varda, Chantal Akerman, Claire Denis) e cineastas do cinema anglo-saxão que dispensam maiores apresentações (Kathryn Bigelow, Jane Campion, Sofia Coppola). Pelo meio, muito ao gosto de Cousins, salienta-se um imenso esforço de pesquisa para fugir de uma abordagem centrada em Estados Unidos e Europa – e aí o “road movie” vai mesmo a todos os quadrantes de tempo e espaço.
Capitalismo e exclusão
Mark Cousins ostentava “Cléo de 5 à 7” na camisola, que servia tanto para referir um dos clássicos femininos da história do cinema, como permitia uma associação rápida ao tema da sua presença na cidade andaluza.
Esbanjando simpatia, desculpando-se por “não falar português” e mencionando ser grande fã de António Reis (“um fantástico cineasta“), Cousins teoriza sobre porque, ao contrário da fotografia, as mulheres ficaram excluídas da realização de filmes.

“A fotografia não é uma indústria capitalista de grandes dimensões. Quando os homens de negócios de Wall Street começaram a compreender que o cinema era um grande negócio, trataram de expulsar as mulheres da indústria“.
Levou muitos anos para que, com aparições pontuais de cineastas mais ou menos esquecidas (algumas sendo objeto de revalorizações, como Alice Guy), as mulheres começassem a ter uma participação mais relevante na realização de filmes.
A exceção notória foi, ironicamente, Leni Riefensthal, que conseguiu singrar numa indústria masculina muito pouco propícia a avanços sociais. Assim, o facto de Riefensthal trabalhar para os nazis há anos coloca problemas morais aos críticos e historiadores.
“Sim, isso coloca algumas questões complicadas“, reconhece. “Ela era um ser humano complexo, egoísta e narcisista. Mesmo depois das revelações de que o nazismo tinha sido uma das piores coisas da história humana, ela continuou a ser o que era. As suas fotos em África, por exemplo, seguem o mesmo padrão dos seus filmes. Mas o seu cinema era poderoso e primitivo“.
A polarização do debate nos Estados Unidos
Nos anos 60, o feminismo e as lutas pela igualdade travadas desde o pós-guerra, finalmente explodiram e liberdades mais amplas surgiram, contribuindo para o início da derrocada da sociedade patriarcal. Mas isso tampouco significou que as mulheres começassem a fazer filmes. Ou, pelo menos, nos Estados Unidos.
“Na verdade, temos que salientar uma grande diferença entre o Ocidente e, por exemplo, o Leste europeu. Em países como a Alemanha Oriental ou a União Soviética, havia uma importante participação feminina na indústria. Mesmo em França e Inglaterra existiram progressos – nos Estados Unidos é que perseverou o conservadorismo“.
Isso resultou na intensidade do debate na América hoje em dia? “Certamente, isso explica a grande polarização que existe hoje nos Estados Unidos. Há muita raiva envolvida no debate que tem esse fundo histórico – no sentido de que o país tem uma indústria de entretenimento gigantesca e as mulheres não faziam parte dele. Por isso é uma discussão tão preto-no-branco – até porque os americanos nunca veem o que se passa em outros lados“.
A Disney e o bullying do mercado
E falando-se de americanos um dos temas na altura continua o ser atualmente – dias depois da Amazon ter comprado a MGM e acrescentado a mais nova efeméride da concentração de poder na indústria cinematográfica.
Em 2019, Martin Scorsese havia feito duras críticas ao totalitarismo que tomou conta do mercado cinematográfico, com uma empresa responsável por marketing massivo a controlar a distribuição e produzem uma panóplia de remakes que usam fórmulas atestadas sem arriscar nada. O que Mark Cousins acha de tudo isto?
“Concordo com a maior parte das coisas que ele disse, especialmente no que se refere à distribuição. Cada vez que um filme da Marvel é lançado, bloqueia tudo o resto em todo o lado. É uma espécie de bullying. Por isso, sou muito crítico em relação à Disney e às recentes revelações de que eles estão a tentar bloquear as produções da Fox. Isso é muito, muito mau”.
O cenário do apocalipse
Já há muito que paira no ar um ambiente um tanto apocalíptico em torno da experiência cinematográfica tradicional – onde à asfixia do mercado descrita acima surgem outras ameaças, como a grande expansão do “streaming” e a já tradicional existência da pirataria.
Sobre tudo isto, Mark Cousins é otimista, apocalíptico ou nenhuma das opções anteriores? “Sou moderadamente otimista, pois acredito que a só as salas de cinema poderão oferecer certos tipos de emoções e espetáculos coletivos que façam com que as pessoas não queiram apenas estar em casa a encomendar uma pizza e a ver filmes na televisão”.
Novo projeto
Durante o confinamento, Cousins descobriu que tinha um problema de visão, uma catarata grave, transformando essa experiência num filme no qual imagina “o importante papel que o olhar desempenhou na sua própria vida e na história da humanidade”.
Baseado no seu livro “The Story of Looking“, e com estreia programada para o Sheffield Doc/Fest em junho, o projeto é descrito pelo próprio como um verdadeiro caleidoscópio de imagens que foi filmando ao longo de vinte anos, onde existe espaço para um olhar sobre a pintura, os corpos e até sobre a forma de ver o Holocausto, com vídeos disponíveis no YouTube. “O filme começa com o Ray Charles a falar sobre ser cego e como não sentia que precisava ver novamente, porque viu a sua mãe, o sol e as estrelas. E é claro que ele é maravilhoso e nós admiramo-lo. Então, começo por dizer que provavelmente está certo: não precisamos continuar a ver as coisas. Mas, no final do filme, a posição inverte-se: ‘Na verdade, ele estava errado.’ Essa é a conclusão. (…) O que as pessoas verão quando assistirem a este filme será uma história realmente global, pois tive a sorte de filmar no Irão, África, China, em todos os Estados Unidos e no norte da Escandinávia. Tornei-me o meu próprio diretor de fotografia há muito tempo. Portanto, veremos imagens de todo o mundo. Isso é o que impressiona as pessoas quando veem isto.“

