Lucile Hadžihalilović fabula no seu filme ‘mais europeu’

(Fotos: Divulgação)

Para o padrão curatorial da secção (mais experimental) Zabaltegi-Tabakalera, La Tour de Glace é um filme mainstream: conta com uma estrela vencedora de um Óscar no elenco (Marion Cotillard), chegou a Espanha com um Urso de Prata no currículo, fala de fábulas e evoca, de modo peculiar, a princesa de Frozen, da Disney. Nada disso, contudo, consegue arranhar a alta voltagem investigativa da cineasta Lucile Hadžihalilović, em especial na dissecação da solidão.

Estamos tão presos à realidade hoje que já não existem alternativas simbólicas que nos permitam dar um passo atrás e refletir sobre a condição humana, o que torna os contos de fadas um espaço bem-vindo para gerar um distanciamento crítico”, disse Lucile Hadžihalilović ao C7, em Donostia, satisfeita com a boa receção de La Tour de Glace no evento e também feliz com a sua chegada ao circuito exibidor da sua França natal, onde acaba de estrear. “San Sebastián abriu espaço para os meus filmes anteriores e sempre saí desse festival com boas recompensas. Em solo espanhol, La Tour de Glace estreia em janeiro, em plataformas digitais, o que também é uma forma de as narrativas chegarem às pessoas”.

Marion Cotillard em “La Tour de Glace”

Coroado na Berlinale com o Prémio de Contribuição Artística, La Tour de Glace decorre na década de 1970, embora pareça intemporal na forma como mistura uma encenação com o sonho de uma miúda. “Como procuro uma sensação de transe, a partir da relação da música com a imagem, até as partes mais realistas do filme nos conduzem a inquietações do presente. O elemento fabular protege-nos do excesso de informação sem propósito que hoje se espalha pelo mundo”, explica a cineasta, que escalou o marido, o realizador Gaspar Noé, para um papel no elenco. “Se Michael Powell estivesse vivo, talvez pudesse ser ele a interpretar a personagem que dei ao Gaspar, que é um cineasta; mas já não está entre nós. Mario Bava também teria sido uma opção. Cheguei a pensar em Guillermo del Toro, mas seria difícil encontrar espaço na sua agenda. O Gaspar fez bem o que lhe pedi.

Na trama de Lucile, ao amanhecer, sob as luzes de uma cidade da qual pouco se sabe, Jeanne foge do orfanato nas montanhas. Refugia-se num estúdio de cinema, que explora secretamente à noite. Durante o dia, está a ser rodado ali o filme A Rainha da Neve, protagonizado pela enigmática Cristina no papel-título. Jeanne fica instantaneamente encantada pela bela e atormentada estrela (interpretada por Marion Cotillard). Um fascínio mútuo nasce entre a atriz e a rapariga.

Arquetipicamente, temos a força da diva e a fragilidade da infância, mas, no íntimo, essas duas forças femininas sofrem com ausências. São duas mulheres que anseiam por ser amadas. A forma como observo e represento os seus corpos não passa por uma ideia de metamorfose, como é típico das fábulas; no desenho sonoro, porém, marco as mudanças internas delas”, explica Lucile, que venceu o Prémio do Júri de San Sebastián em 2021 com Earwig, obra marcada por influências de Kafka e Robert Walser. “Em La Tour de Glace, dialogo com a fabulação de Hans Christian Andersen, que povoa o meu imaginário há muito tempo. De certa forma, esta relação com Andersen faz com que esta nova longa seja o meu filme mais europeu… e menos francês. É diferente de tudo o que a França faz na atualidade e conversa com uma certa tradição britânica.

O Festival de San Sebastián decorre até 27 de setembro.

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