Depois de ter brilhando com a sua primeira longa-metragem, “O Culpado”, que veio mesmo a ter um remake norte-americano protagonizado por Jake Gyllenhaal, o cineasta dinamarquês Gustav Möller regressa às salas de cinema com um novo projeto que volta a sublinhar as suas ambições temáticas e formais. Em “Filhos”, protagonizado pela atriz Sidse Babett Knudsen e Sebastian Bul, Möller volta a trazer à baila a questão da “culpa”, recorrendo novamente a um espaço bem delimitado para a ação (uma prisão), além de continuar a procurar levar ao cinema questões “impossíveis de responder”.
Seguindo a história de Eva (Sidse Babett Knudsen), uma guarda-prisional que vê chegar à cadeia onde trabalha Mikkel (Sebastian Bul), um jovem com ligações obscuras ao seu passado, Möller constrói uma obra de profunda tensão, enquanto – paralelamente – vai desconstruindo uma personagem que não vê o seu trabalho com um mero emprego, mas faz disso a razão da sua vida.
Foi em Berlim que nos encontrámos com Gustav Möller, que nos falou do que o inspira e faz mover no cinema.
O sentimento de “culpa” é algo que encontramos frequentemente nos seus filmes. O que o leva até esse tema?
Não vou tentar fazer psicologia comigo, mas é algo que obviamente estou a explorar como cineasta. No “The Guilty” exploramos quem realmente é culpado e o que é a culpa. Aqui, essa questão não se coloca, pois já existe uma sentença e uma pena a cumprir. Continuando tematicamente, agora a questão é mais o que fazer com essa culpa, como te redimirás e se consegues remover a culpa através da vingança. O “Filhos” e “O Culpado” são parentes, mas exploram vertentes diferentes. De certa maneira, a culpa leva-te a uma prisão, mas poderá ajudar-te igualmente a sair dela.
Em “Filhos” temos sempre um registo de ambiguidade no que diz respeito às personagens, que nos fazem mudar permanentemente de opinião acerca delas. Como lidou com isso?
Além de ver a prisão como uma arena cinematográfica, entusiasmou-me a ideia de como as construímos. Por um lado, são espaços de reabilitação. Por outro, são claramente locais de punição. Para mim estas duas coisas entram em conflito, pois quanto mais punires, piores resultados vais ter na reabilitação. Porém, quanto melhor tratares um preso na sua reabilitação, mais dor vais encontrar na sociedade perante a ausência de uma real punição. São estes conflitos e paradoxos que me interessavam explorar. Literalmente, sendo um guarda-prisional [nos países nórdicos], tens de ajudar um preso, por exemplo, nos trabalhos durante a manhã, e talvez reprimir e bater na mesma pessoa à noite. De manhã, é literalmente como se tivesse vinte miúdos para levar à escola. Há um cuidar e controlar quase paternal. É esta a chama do filme.
Falando nessa investigação, como se processou?
Eu e o coescritor fomos a prisões de alta e baixa segurança e conhecemos detidos e guardas de ambos os sexos. Também falámos com padres e psicólogos. Tínhamos alguém que colaborou conosco, o Martin,um guarda prisional que já conhecíamos antes de fazer o filme e estabeleceu essas ligações. Ele também leu todos os esboços do guião e colocou anotações. Também esteve nas filmagens, para ajudar a dirigir os atores que faziam de polícias. Foi um par de olhos extra para mim e até acabou por ter um pequeno papel no filme.
Quando se fala de temas como este, com culpa e castigo como objetos de reflexão, qual é o real poder do cinema?
Acredito que o seu poder é imenso. Como seres humanos precisamos de arte de maneira a viver e refletir sobre nós mesmos. Sem arte, não seríamos nada. Mas não tenho uma mensagem política a passar num filme. Não imponho a minha visão do mundo. Prefiro olhar para algo com tanto de fascínio como intriga. E as questões têm de ser impossíveis de responder, para eu querer falar delas. Só assim conseguimos explorar as coisas além do analítico e do racional, com esperança que isso também nos traga alguma lucidez. Tenho a certeza que as pessoas têm interpretações muito diferentes sobre este filme, no que toca a qualquer mensagem ou questão. Pelo menos, assim o espero. Não tenho intenções políticas ou morais quando faço um filme.
Sim, mas todos os filmes são políticos…
Claro que sim. Tudo é político, mas nunca tomo um partido.
Além da “culpa” estar em evidência nos seus dois filmes, há também uma preferência por locações bem delimitadas e encerradas. Que desafios isso lhe traz?
Preciso sempre de limites, de fronteiras, para assim encontrar uma outra maneira de contar a história que quero. Por exemplo, desde o início decidi que esta teria de ser uma história diferente sobre prisões. E por termos uma mulher que, à sua maneira, está encarcerada dentro de si, nunca a vemos fora do espaço da prisão, na sua vida privada. Era uma regra que tínhamos, o que nos fez pensar em como contar quem ela é.
A verdade é que nunca sabemos como se veste fora da prisão, onde vive, etc. Só a vemos no seu trabalho. Estas limitações forçam-te a ver as coisas longe do clássico. Se tivéssemos toda a abertura possível para contar a história, acabávamos por escolher a via mais simples para o fazer. As barreiras inspiram-te criativamente.

Além disso, acho que, ao trabalhar com espaços controlados, em verdadeiras arenas, facilitamos a construção de um microcosmos. A prisão tem uma sociedade muito própria, com regras e arquétipos com que podes jogar. Se abres o seu mundo, as coisas ficam mais reais, se acentuas um confinamento, consegues mostrar um universo muito próprio. Nesse sentido, uma das coisas que acho que a designer de produção conseguiu muito bem foi colocar o espaço da prisão de certa maneira a seguir a psicologia da protagonista. As coisas começam de forma naturalista, mas vai se tornando cada vez mais surreal.
Na construção do Mikkel, fugiu também aos clichés de o retratar como puro mal, mas igualmente como “pobre rapaz” que está ali apenas pelas circunstâncias da vida. Como criou essa personagem?
Para mim era óbvio que teria de criar alguém que não entregaria de bandeja ao espectador uma resposta fácil. Se criasse um preso que representasse o verdadeiro mal, sem hipótese de redenção, então o espectador automaticamente olhava para o filme e desejava que o fechassem na cela, deitassem a chave fora e o punissem exemplarmente. Por outro lado, se ele fosse um pobre rapaz que acabou naquela situação por culpa alheia ou do meio onde se inseria, dizíamos facilmente que ele precisa de uma rápida reabilitação e reintegração social. A verdade é que vivemos num mundo onde existem pessoas que simplesmente não conseguimos entender, mas que temos de lidar com elas, enquanto sociedade. Por tal, pretendi manter essa personagem como um enigma.
Numa das cenas, coloca a guarda prisional num frente a frente com presos fisicamente massivos. Queria com isso mostrar uma fragilidade na personagem da guarda prisional perante o ambiente que a rodeia?
Não pensei nisso deliberadamente, em termos físicos ou de género. Creio que nela o que se destaca é a razão pessoal porque está ali. E é isso que a torna frágil e vulnerável.
Para todos os outros guardas, aquilo é um emprego. Para ela, é uma espécie de “chamamento”. E estar onde está o Mikkel, é uma questão pessoal. Foi essa a abordagem que quis e não tanto a clássica de uma mulher num ambiente laboral masculinizado. Não vejo uma mulher, vejo a Eva.
Houve alguma referência cinematográfica que o tenha acompanhado na realização deste filme?
Cinematograficamente, não partimos de nenhuma referência. Acima de tudo procuramos tratar psicologicamente da personagem da Eva e, depois, aproximar o mais possível o espectador dela. Isso condicionou todas as nossas decisões, fossem o uso do som, o ritmo, etc. Queria que o espectador vivenciasse o seu mundo, onde a imprevisibilidade é constante. Neste ambiente, a violência pode surgir a qualquer momento e de qualquer lado. Quis emular isso através de uma imagem estreita e um som amplo. Como se colocasse o espectador com uma visão de túnel, mas com o som ao seu redor a inquieta-lo. Na montagem, quis também criar um tempo de imprevisibilidade.
Fez “O Culpado” e depois seguiu para uma série. Agora voltou ao cinema. Como escolhe os seus projetos?
Há muito que queria explorar este tema das prisões. Estava a trabalhar neste projeto quando tive a oportunidade de filmar o “Dark Heart”, que é uma série limitada. Até foi agradável, pois as filmagens eram numa floresta e dava para descansar da prisão (risos).

