Há tempos que o cinema alemão – lar de Werner Herzog, de Fassbinder e de Wim Wenders – vem estruturando parcerias de produção com territórios como a França e a Bélgica a fim de oxigenar a sua indústria, hoje devotada a investir no terreno das séries de streaming. De vez em quando, algum talento germânico se afina com as produtoras de França, como se vê com uma especialista em radiografar as angústias femininas: Emily Atef. Antes de brilhar na Berlinale com uma narrativa regada a erotismo (“Someday We’ll Tell Each Other Everything”), ela extraiu lágrimas – de Cannes e de outros territórios – com “Plus Que Jamais” (Mais que Nunca), melodrama hoje em cartaz em Portugal.
“Este novo filme é cheio de silêncio pois estou sempre a tentar criar um paralelo entre as inquietações das mulheres com os vetores opressivos que nos acossam e nos impõem normas”, disse Emily ao C7nema durante a sua passagem pelo 25º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, um fórum promocional de longas-metragens europeias realizado em Paris, em janeiro. “O ruído e a quietude do espaço à minha volta são a fonte da minha dramaturgia. O meu cinema tenta deixar com que o som guie a sensibilidade do espectador por camadas que nem sempre são ditas ou mostradas na narrativa”.
Nomeada ao Urso de Ouro de 2018 com o tocante “3 Days In Quiberon”, Emily passou 2022 em uma bifurcação profissional, ao dividir a sua agenda entre “Killing Eve”, série de culto da qual é realizadora, e a carreira internacional do doído “Plus Que Jamais”. Vista em Cannes, há dois anos, a película foi o canto de cisne do ator Gaspard Ulliel, morto num acidente de esqui no início do ano passado. O rosto vívido de Ulliel faz os ecrãs inflamar de dor nas cenas em que Matthieu, a sua personagem, tenta entender (em vão) o que se passa no coração de sua amada, Hélène, papel da atriz europeia da vez, Vicky Krieps, vinda do Luxemburgo e vista, recentemente, em “Corsage”. No guião filmado por Emily, Hélène está a morrer. A certeza do fim faz com que ela viaje para uma região da Noruega a fim de se encontrar com um blogger que consegue expor em palavras as angústias da finitude.

“O que procuro em ‘Plus Que Jamais’ é uma relativização do peso trágico da morte um modo de questionar a onipotência do amor na dimensão por vezes redentora atribuída a ele. Na trama, Matthieu enreda a sua mulher numa relação claustrofóbica, que limita os seus passos em busca de uma transcendência”, diz Emily, que estreou-se na realização há 20 anos e ganhou fama em 2008, ao assinar o aclamado “O Estranho Em Mim”, revelado em Cannes e premiado na Mostra de São Paulo.
Com “Plus Que Jamais”, ela levou a seção Un Certain Regard de Cannes ao pranto com a delicadeza com que narra o calvário de Hélène. “A frase que resume o filme com mais precisão é: ‘A portadora de uma grave doença viaja pela Noruega nos instantes finais da sua vida para morrer’. Ou seja, estou a falar do desapego, emocional e material. É um ritual que usa toda a beleza natural à sua volta. Mas a força daquela mulher chama tanta atenção quanto a natureza”, diz Emily. “De um inesperado desapego em relação às certezas materiais e morais, nasce uma história de amor que transcende o tempo e os vínculos”.

