Fortemente inspirado na história da sua mãe, que migrou para o Reino Unido e trabalhou como empregada da limpeza, o britânico de origem filipina Paris Zarcilla provocou uma das grandes surpresas de 2023 ao conquistar ao famoso galardão de melhor filme no SXSW, no Texas, com “Raging Grace” (Graça Furiosa).
No filme seguimos Joy, uma imigrante que se sujeita a trabalhos precários como mulher-a-dias, para poder pagar os vistos que irão legalizar a sua permanência e a da filha, Grace, em Inglaterra. Desesperada por estabilidade e um abrigo seguro para Grace, Joy vê na oportunidade de trabalhar para Garrett, um velho aristocrata moribundo, um sonho tornado realidade. Sonho esse que cedo se revelará um grande pesadelo entre assombrações e ingleses de nariz empinado.
Foi em setembro passado, por ocasião do MOTELx que falámos com o cineasta em Lisboa. E foi uma conversa sobre o seu filme, mas também sobre a condição dos migrantes e o colonialismo.
Como nasceu a ideia para este filme e quão pessoal ela é para si?
Infelizmente, a história de muitos migrantes é horrível. No Reino Unido, particularmente em relação à migração para Londres, existe uma retórica governamental muito tóxica. Esta ideia surgiu no ano do Covid, 2020, uma época em que nós, como indivíduos, passámos por um longo tempo de introspecção. No meu caso, tive uma crise existencial. Os meus pais são migrantes e sempre quiseram que os seus filhos florescessem. Durante décadas disseram-nos para nos integrarmos, para nos misturar e assimilar a cultura local. Mas quando passam 30 anos pensas: Quem és tu?
A verdade é que és alguém que rejeitou a sua herança cultural. Foi nesse ano que pensei que estava muito longe do que sou como ser humano. Senti uma grande vergonha de mim e uma dor enorme. Passei anos a rejeitar as minhas origens para tentar encaixar na sociedade britânica.
Nesse tempo do Covid, houve um incremento do ódio aos asiáticos. O governo reunia imigrantes e fazia deles gato sapato. os mesmos imigrantes que vieram para o Reino Unido ajudar no Serviço Nacional de Saúde e estavam nas trincheiras da frente contra a pandemia. Enfermeiros, médicos, técnicos, etc. Muitos deles filipinos. Isto deu-me uma raiva enorme. Mas peguei nessa raiva e meti-a no filme.
Mas os seus pais, quando foram para o Reino Unido, passaram por situações refletidas no seu filme?
Muito do meu filme é inspirado na experiência da minha mãe quando veio para Londres. Ela era professora, mas o único emprego que conseguiu no Reino Unido era como ama ou empregada de limpezas. Quando era pequeno, eu ia muitas vezes com ela para o trabalho e ensinava-me coisas, como aspirar. Aspirei casas de baronesas, advogados. O meu irmão até chegou a limpar a casa do John Cleese. Mas a minha mãe nunca articulou por palavras o desconforto que sentia no tratamento dado pelos patrões brancos. Ela recebeu micro e macro agressões. O mesmo aconteceu com o meu pai. Para esta geração era muito difícil falar sobre essas coisas. Muitas das coisas que eles viveram ainda existem.
O fundamental para mim era encontrar uma linguagem para falar de coisas que normalmente temos dificuldade em falar. E essas coisas estão a encontrar nos cinemas pessoas que também passaram por isso. Pela invisibilidade, o preconceito por trás de sorrisos. Estranhos atos de saudar que ainda me fazem sentir um incômodo. Mas porquê me sinto assim? Quando falamos destas coisas, do outro lado apontam a patologia para nós. Mas não sinto isso. No Reino Unido existe muito um sentimento que se não te acontece a ti, não está realmente a acontecer. Isso leva-me a sentir desconforto e raiva. Como asiáticos, nunca nos damos a permissão de falar sobre estes temas, de nos expressar. Por isso, o cinema faz coisas miraculosas como deixar-nos falar sobre estas coisas.
Precisamos ter esta capacidade de nos expressar para conseguirmos chegar até aquele lugar onde sentimos orgulho. E isso não chega antes de passarmos pela raiva.
O tema das migrações geralmente é abordado através do drama. Porém, optou por abordá-lo com elementos de género, como o horror. Qual a razão dessa opção?
As histórias de migrantes frequentemente estão repletas de horrores. Para mim era natural seguir por aí, mas um outro tipo de horror. Este é um filme sobre raiva e trauma, mas também sobre como chegar à alegria. O que fiz foi libertar tudo isto para chegar a um lugar de felicidade e celebração da minha cultura. A questão dos migrantes reflete muito a vida quotidiana. Um drama puro apenas iria ecoar num público muito limitado. Por isso, pensei em algo na base do entretenimento, mas por baixo disso, numa camada mais profunda, temos um espetáculo catártico de raiva contra coisas horríveis que acontecem a pessoas sem voz.
Quando falamos da herança cultural filipina, temos de falar do cinema. É um conhecedor do cinema filipino?
Em termos de clássicos, não sou um conhecedor como gostaria de ser. Mas naturalmente tenho influência de cineastas atuais como Lav Diaz e Isabel Sandoval. Eles são incríveis e têm muito para dizer nos dias que correm sobre o que é ser filipino. Cresci em Londres com um misto de filmes de Hollywood muito comerciais e muito cinema europeu de autor. Estranhamente, o meu filme inspira se na “Matilda” do Danny Devito, também no “Fanny and Alexander”, o “The Servant” e o”The Changeling”.
Numa conversa recente com o Lav Diaz, ele mostrava-se muito esperançoso na nova geração de cineastas locais que continuassem a abordar temas políticos em relação à vida do país e a condição de ser filipino. Sente-se parte dessa geração? Espera que isso aconteça?
Espero que sim, mas assusta-me pois sinto que estou ainda a sair de uma mente muito colonizada. Os filipinos vêm de gente guerreira que nasceu com o fogo. O que acho interessante é que os colonizadores tentaram usar o fogo para destruir a nossa cultura, a nossa língua. Não consegues incendiar algo que sempre foi uma chama. Creio que durante 400 anos o nosso fogo perdeu força, mas recuperou-a nos últimos 40 anos. Nunca mais quero sentir medo ou vergonha de usar o meu fogo. Muitos cineastas estão a descobrir a sua chama. Espero que o “Raging Grace” possa contribuir para incendiar a casa do mestre [colonizador].

Qual foi a sensação de ter sido premiado no SXSW?
Foi uma surpresa. Todos os outros filmes tiveram o tapete vermelho, a presença de estrelas, etc. A nossa equipa nem ia à receção dos prémios. Estar ali, no festival, já era um prémio. Mas fomos e foi uma loucura quando ouvimos o nosso nome. Foi um sonho. Um momento impossível. O SXSW foi o primeiro a acreditar no filme, bem antes do buzz.
Qual é o seu próximo projeto? Vai continuar a abordar estas questões ligadas aos migrantes?
Sim. Este foi o primeiro de 3 filmes, uma trilogia da raiva. O próximo chama-se “Domestic”, sobre um casal filipino nos anos 90, em Londres. Tem elementos de heist movie pois enquanto esse casal trabalha num café, ao fim de semana ajudam outros migrantes a escapar das garras de patrões abusivos. Baseia-se na história real dos meus pais, que faziam isso. Fala de algo com 30 anos, mas que ainda acontece hoje em dia e se esconde por trás de uma aparente felicidade. Mesmo com a dureza temática, terá humor e muito suspense.

