Vencedora de duas distinções no Festival de Veneza como melhor atriz – “Storia d’amore”, 1986; e “Per amor vostro”, 2015)-, Valeria Golino não se tornou apenas uma das atrizes italianas de maior calibre, como deu o salto para Hollywood (“Rain Man”; “Hot Shots”) com sucesso. Mais recentemente, deu nas vistas na série da Apple “The Morning Show, enquanto se manteve ativa no cinema italiano e deu o salto para a realização, em 2013, com “Mel”. Seguiu-se “Euforia”, em 2016, e, 8 anos depois, ela senta-se novamente na cadeira da realização na adaptação a minissérie de uma obra icónica da escritora Goliarda Sapienza, “L’arte della gioia” (A Arte da Alegria), exibida no último Festival de Cannes, numa sessão especial.
Famosa em Itália pelas dificuldades que teve em ver a sua “A Arte da Alegria” publicado em Itália, Goliarda terminou de escrever o livro em 1976 e só depois da sua morte, em 1996, ele chegou às livrarias. Esse atraso na publicação pouco teve a ver com o volume do livro (528 páginas, na edição atual), mas principalmente pelos temas que abordava, considerados imorais para a época, já que retrata uma mulher que não se deixa dominar pela moral convencional e pelos papéis femininos tradicionais. A obra descreve a busca de Modesta (Tecla Insolia) pela independência cultural, financeira e sexual na Sicília do início do século XX, durante a qual ela dorme com homens e mulheres, comete incesto e assassina uma freira (Jasmine Trinca).
Foi em Cannes que nos encontrámos com Valeria Golino e descobrimos um pouco mais sobre a minissérie que realizou, mas também sobre a autora da obra original, Goliarda, que será o foco do próximo filme de Mario Martone (Nostalgia).
Quando leu a primeira vez o “L’arte della gioia” (A Arte da Alegria)?
Li este livro há 20 anos, logo após ter sido publicado. Como sabem, o livro levou muito tempo a ser publicado e só o foi depois do falecimento da escritora. Depois li novamente há 10 anos e novamente há 5 anos, quando conseguimos os direitos para o adaptar. Nessa altura, pensamos no que iríamos fazer com o material, pois era um livro muito extenso, complexo e difícil de adaptar. Para se ter noção, levei dois anos e meio para o adaptar ao formato minissérie. Inicialmente queria fazer um filme, claro. E já muita gente tinha tentado adaptar este romance. Na verdade, há 20 anos até me ofereceram a hipótese de participar nele como atriz.
É importante dizer que conheci pessoalmente a Goliarda Sapienza, a escritora, quando tinha 18 anos. Fiz um filme com o seu ex-marido, o realizador Francesco Maselli, e, nesse filme, tinha de fazer o papel de uma mulher de Roma. Ora, sou de Nápoles e o sotaque é bem diferente. A Goliarda acolheu-me e, na altura, era uma escritora em dificuldades, pois ninguém queria publicar a sua obra. Deu-me aulas três vezes por semana, para eu conseguir captar o sotaque romano. Eu era muito nova e tenho pena de, na época, não ter percebido a mente brilhante e especial que tinha pela frente. Depois de ter feito o filme, nunca mais tive contacto com ela. Era uma miúda e não entendi que tinha pela frente uma artista muito especial.


E esse filme que fez com o ex-marido dela era o…
“Storia d’amore” (História de Amor), o filme que lançou a minha carreira. Ela ajudou-me muito para esse papel. Foi o meu primeiro prémio em Veneza. Já ganhei dois (risos). Sou a única atriz que venceu duas vezes a distinção de melhor atriz, além da Isabelle Huppert. Só que ela ganhou ex aequo. (risos)
E nessa adaptação, o que retirou e o que usou do livro?
Quando se adapta um livro, como o dela, que é gigantesco, é muito complicado. O que é fascinante nele é a presença de uma personagem muito feminina numa situação única, que não é apenas incomum em Itália, mas igualmente na Europa. É uma anti-heroína, quase uma bizarria. Esse género de papéis sempre foram escritos para homens. Na literatura e agora nos filmes, a não ser que fossem as famosas femme fatale dos filmes noir, as mulheres nunca tinham papéis assim. Sempre existiram arquétipos onde nós, mulheres, encaixávamos. Já este tipo de papel abre maiores possibilidades. Se formos a ver, os papéis femininos eram sempre do tipo “mãezinha”, moralmente melhores que os homens. Nunca eram pessoas violentas. A personagem deste livro está isenta do sentimento de culpa, vai tentar sobreviver a todo o custo, mesmo que tenha de magoar outras pessoas. Não o faz por crueldade, mas por adaptação aos cenários que se lhe colocam. E há todo um erotismo nela muito feminino. É um tipo de personagem que normalmente uma mulher não encontra escrito para si. Por isso, quando li o livro pensei que estava perante um milagre e que não existia nada assim. Para ser sincera, é algo que, quando leio, às vezes até me incomoda.
Tentei passar o mais possível do que estava no livro para esta minissérie. E fiz no formato minissérie porque não consegui encaixar tudo num filme. Era demasiada informação para enfiar em 1h30 ou 2h00.
Mas quando pensa num projeto, o seu primeiro pensamento é adaptá-lo ao cinema?
Sim, claro. Esta foi a minha primeira vez como realizadora para a televisão. Não fazia ideia que fazer uma série seria completamente diferente de fazer um filme. As leis são outras. Tive de aprender essas leis à medida que ia fazendo a minissérie. Num projeto destes tens de dar explicações a 20 pessoas. Não é como no cinema, que falas com o produtor ou o argumentista. Desde os editores de conteúdo da estação de TV, ao dono da estação, etc, falas com imensa gente. E tens de estruturar tudo a pensar na televisão. Por exemplo, se não fores suficientemente interessante no primeiro episódio, perdes o público. Tive de pensar em entretenimento para as pessoas não mudarem de canal, ao mesmo tempo que tentava enfiar cinema nela. No fim, tentei casar as duas coisas, a linguagem de cinema e de TV, que são bem diferentes.
Sobre isso, no verão passado, tive uma conversa muito interessante com o Alfonso Cuarón, que é meu amigo e um cineasta incrível. Ele também estava a trabalhar numa série de TV e disse várias coisas que me ficaram na cabeça. A mais importante foi que ele sentia que todas as ideias que tinha sobre beleza estavam a mudar, desde que começou a trabalhar numa série. O que é belo num filme pode não ser belo numa série. O silêncio, por exemplo, que é algo que adoro, se o meto na minha série é a morte. “Nunca tenhas silêncios”, disse-me. “Mesmo que não esteja a acontecer nada, tens de meter qualquer coisa: um som, um pássaro, uma música, qualquer coisa”. O vazio não funciona na televisão. Há tanta coisa que fiz nesta minissérie que nunca faria num filme. E para teres uma pausa na série tens que primeiramente ir rápido, rápido e rápido.
A sua experiência como atriz, por exemplo, em séries norte-americanas como o “The Morning Show”, ajudou-a no processo de realizar para televisão?
Sim, sem dúvida. E no ano passado participei numa série para a Netflix, “The Lying Life of Adults” (A Vida Mentirosa dos Adultos), que adapta uma obra da Elena Ferrante. Filmei em Nápoles com um realizador fantástico (Edoardo De Angelis). Aprendi e roubei conceitos do que era bom e mau para filmar a minha série.

Foi uma boa experiência filmar o “ L’arte della gioia”?
Sim, mas muitas vezes também foi angustiante. Houve alturas em que pensei que a série ia ficar uma merda, sempre a ouvir as opiniões de todos. Mas, graças a Deus, estava a trabalhar com a Sky, pois esta é ainda uma estação de TV que te permite manter a tua ideia. Na parte da forma são rígidos e estavam sempre a dizer que estava a fazer algo como um filme e não uma série. Eu dizia que nunca iria mudar, mas cinco meses depois estava a fazer o que me diziam. Por outro lado, em relação às cenas que envolviam conteúdos, como o sexual, nunca me colocaram questões. Isso é muito precioso porque outros canais e plataformas fazem isso frequentemente. Dizem que não é politicamente correto, ou para ter atenção às audiências jovens, etc. Nesse aspeto, aceito mexer na forma, mas nunca no conteúdo.
Muitos autores dizem que hoje em dia têm de pensar muito bem no que escrevem para não ofender alguém. Como argumentista e realizadora, como vê isso?
Como civil defendo que é muito importante uma revolução cultural, que certamente vai terminar em bom porto. Aprecio por isso a mudança das coisas. Como artista, creio que silenciar artistas, pensar na linguagem como algo perigoso e não consagrar o discordar não é bom para a arte em si. A arte deve ser sempre contra o status quo e ser livre no discurso. E nesse discurso incluo o falar de personagens que são terríveis, que dizem e fazem coisas horríveis.
E tem novos projetos?
Brevemente vou fazer um novo filme, como atriz, com o Mario Martone. Vamos filmar dentro de duas semanas e interpreto o papel da Goliarda Sapienza (risos).
A Goliarda tornou-se uma obsessão?
É uma perseguição (risos). Não sei se de mim a ela ou se dela a mim (risos). Vai ser um papel difícil. Ela chegou a estar presa, por roubar joias. O filme vai focar-se nesse momento da vida dela. Vai ser filmado em Roma. Ela fez parte de um grupo de esquerda e passou um mau bocado. Roubou joias e não foi nada bom para a sua reputação. Quando saiu da prisão, já estava casada com o Angelo Pellegrino.
Nos créditos da sua série faz um agradecimento especial à Patrícia Arquette. Podemos saber a razão para isso?
Quando ainda estava a escrever e a falar com a Sky, que concordou avançar com ela, a Patricia – que é minha amiga – ajudou-me a ter reuniões com a HBO. Mesmo que ela não participasse no projeto, esteve comigo quando fiz o pitch da série à HBO, quando ainda estava a tentar conseguir dinheiro para a fazer. Mas eles não ajudaram. Disseram para eu acabar primeiro a série e depois para lhes mostrar.
E já lhes mostrou?
Ainda não. A Patrícia ajudou-me nisso, mesmo que não tenha funcionado. Talvez gostem da série agora, vamos ver.

