Passados exatamente 30 anos da sua consagração, com “Morte di un Matematico Napoletano“, coroado com o Prémio Especial do Júri de Veneza, em 1992, o realizador Mario Martone teve a chance de renovar o seu clube de fãs, ressaltando a sua importância para a reconfiguração autoral do cinema italiano, com a exibição do devastador “Nostalgia“, na competição pela Palma de Ouro do 75º Festival de Cannes.

Aos 62 anos de vida (37 de carreira), ele será homenageado de 18 a 25 de junho deste ano com uma retrospetiva no Festival de Pesaro, que aproveita o recente sucesso do seu “Qui Rido Io” (exibido no Lido em 2021) para construir, a partir dele, a necessária genealogia da autoralidade no cinema italiano. Embora o seu nome não tenha se afirmado, ainda, na condição de marca, ele demarca a sua impressão digital estética com a sua mais recente crónica da atomização de uma amizade no tempo, que se confunde com aquilo que faz de melhor: o mapeamento das agruras da sua Nápoles natal, sob o jugo da máfia e do desamparo estatal.

Ele nunca teve, na Croisette, um prestígio AAA. Passou pela competição em 1995, com “L’Amore Molesto“, e voltou, via Un Certain Regard, em 1998, com “Teatro di Guerra“. Mas nada do que já fez antes tem o refinamento formal, nem uma dramaturgia tão tempestuosa, quanto o drama mesclado aos tons de thriller mafioso que filmou com Pierfrancesco Favino.

Quando começou a filmar, em 1985, nas curtas (Nella Città Barocca) e telefilmes (Perfidi Incanti), quem era o darling em ascensão em Itália era Nanni Moretti, que estava já em atividade desde a estreia de “Paté de Bourgeois” e “La Sconfitta“, ambos de 1973. Moretti foi a clareira que, ali, na década de 1980, pelas vias da ironia e da sátira política, manteve a grandeza do cinema italiano viva e festejada. Os 1980s foram a Idade Média mediática em que Silvio Berlusconi, no comando parlamentar daquele país, sucateou a produção audiovisual local, a fim de valorizar mais a TV do que o grande ecrã. Uma terra de gigantes (Rossellini, De Sica, Fellini, Visconti, Antonioni, Pietro Germi, Pier Paolo Pasolini, Elio Petri, Lina Wertmüller, Valerio Zurlini), aquela pátria era próspera na seara dos filmes de género. Brilhava no terror, com o giallo de Dario Argento. Brilhava no faroeste, com as “macarronadas” de Sergio Leone, Tonino Valerii e Sergio Corbucci. E brilhava nos épicos de gladiador (os Peplum). Mas a sua euforia audiovisual minguou durante muito tempo, de 1984 a 2008, vendo as suas fontes de fomento à produção cinematográfica escassearem. Até campeões das bilheteiras como Carlo Pedersoli e Mario Girotti (conhecidos como Bud Spencer e Terence Hill) deixaram de fazer os filmes da franquia Trinity, sob a guilhotina de Berlusconi, restando visibilidade a poucos cineastas. Giuseppe Tornatore (com Cinema Paradiso) e Roberto Benigni (com A Vida É Bela) souberam bem flertar com as receitas da Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Resistentes do movimento moderno também se mantiveram firmes, como o finado Bernardo Bertolucci, que foi fazer uma incursão pelo Oriente e filmar em outras línguas, e o até hoje imparável Marco Bellocchio, que brilhou em Cannes este ano com “Esterno Notte“. Mas esses dois são crias da década de1960. Martone, não. Ele estreia-se nas longas-metragens numa fase de ressaca económico da indústria cinematográfica do seu país. Mas resiste, mesmo sem ter tido o reconhecimento que merecia.

Nostalgia” pode mudar isso. O seu filme teve aquele efeito de “descoberta”, embora o mais correto, diante do currículo do realizador, seria falar em “redescoberta”, em “reinvenção”, seja dele mesmo, seja a dos códigos cinematográficos da sua pátria. Nela, o cineasta se impõe por ser um moderno tardio, que não se fez na liquidez da pós-modernidade. E ele teve a sagacidade de entender parte das chagas dos nossos tempos (a gentrificação; o emascular; o deitar para o lixo a honra; a destruição dos signos de fé, por apostasia ou por banalização). E esse sagaz olhar rendeu a Cannes um presente em forma de 1h57 de filme, universal. Passa-se em Nápoles, mas poderia ser em Campo de Ourique, ou Bonsucesso.

Pierfrancesco Favino – que filmou “O Traidor” de Bellocchio no Rio de Janeiro – é o aríete com o qual Martone avança rumo à consagração e a um merecido Prémio do Júri, com os seus ângulos de câmara vívidos e inquietos, explorando a profundidade de campo da Nápoles para onde o seu protagonista regressa. Foi “O” trabalho de ator do festival, na competição, num papel central, apesar da atuação (em estado de graça) de Viggo Mortensen em “Crimes of the Future“, de David Cronenberg, e de Song Kang Ho em “Broker“. Favino tem 95% de “Nostalgia” para si. Os 5% que sobram dividem-se entre o padre Rega (Francesco di Leva) e o bandido Oreste (Tommaso Ragno). Este foi o maior amigo que Felice, construtor no Egito, vivido por Pierfrancesco, teve nos seus anos de formação.

No início do filme, Felice regressa à sua cidade natal para tomar conta da mãe doente. É um terço de arrancada doce, onde a câmara do fotógrafo Paolo Carneva gira em espasmos, caçando um quadro que fuja da obviedade. Caça, caça… e consegue surpreender. Sempre! Durante todo o filme.

Só que essa fase introdutória da narrativa é demasiadamente folhetinesca, calcada em dilemas melosos, de luto anunciado. Passada essa introdução com ares melodramáticos, de mãe e filho, uma pergunta feita por Felice muda as rédeas da narrativa: “Onde está Oreste?”. No passado, os dois eram unha e carne, até um crime mudar tudo. Ao tentar entender o que foi feito daquele amor de ontem, do “bromance” de pura amizade, Felice começa a se reencaixar numa paisagem que abandou há 40 anos. Mas nem sempre a paisagem nos quer de volta. Nem sempre aquele a quem confiamos o nosso coração deu valor à imolação que fizemos, fortuitamente. O saldo é uma ressaca. Mas nem todas essas ressacas são só de álcool, ou só de sal. Eis então o que Martone mostra, numa fita perturbante, que só não transcende mais pelas limitações que o próprio cinema italiano cria, encaixotando os seus realizadoras como sobras de um cinema glorioso do passado. Alice Rohrwacher fugiu dessa caixa, mas Martone ainda não. Mas falta pouco.  

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
nostalgia-um-passaporte-para-a-aclamacao-de-mario-martoneMartone mostra, numa fita perturbante, que só não transcende mais pelas limitações que o próprio cinema italiano cria, encaixotando os seus realizadoras como sobras de um cinema glorioso do passado.