Tanto no Festival de San Sebastián quanto no Festival do Rio, Benjamín Naishtat já é de casa. “É a terceira vez que venho exibir filme em terras cariocas e tenho uma impressão muito boa da forma como o cinema do Brasil explodiu nos últimos 20 anos. Ver o que se passa em Recife – na produção forte de lá, de Penambuco – deixa uma boa impressão. Trabalhei com o Pedro Sotero, um diretor de fotografia de lá, e ele veio com uma equipe ótima“, diz Naishtat ao C7, na Glória, bairro que abriga a sede do Festival do Rio.
É para lá que ele levou “Puan“, filme rodado em duo com María Alché, que terá uma projeção na sexta-feira, no Estação NET Gávea 1, às 16h. A longa-metragem deixou San Sebastián, no dia 30, com a láurea de Melhor Guião (dada à dupla de cineastas) e a de Melhor Interpretação, entregue a Marcelo Subiotto.
“Encaro de modo muito questionador o termo ‘filme político’, pois vejo política em todo o cinema, até na Marvel. O que se vê em ‘Puan’ é uma comédia, é um drama, mas não cabe um rótulo“, diz Naishtat.
Alché e ele foram premiados em San Sebastián em 2018, em seleções diferentes. Ela foi premiada por “Família Submersa” (Prix Horizontes Latinos) e ele foi laureado com “Rojo” (Concha de Prata de Melhor Realização), María e Benjamín tomaram Donostia de assalto de novo este ano, agora unidos, na competição oficial do festival espanhol, com “Puan“. Produzido em parceria com o Brasil, a longa-metragem do duo argentino foi o exercício estético mais pleno (em excelência técnica e em ardor) de toda a disputa pelos troféus ibéricos de 2023. Um elenco em estado de graça, com destaque para Subiotto, guia uma trama cómica exuberante sobre ensino na seara da edução universitária pública de nuestros hermanos. “Filmamos tudo em cinco semanas, sem tempo para o improviso“, diz o cineasta.
Subiotto tem uma atuação elétrica no papel de Marcelo Pena, professor de Filosofia especializado na obra de Thomas Hobbes e de Martin Heidegger que tem a chance de assumir o posto deixado pelo seu antigo mestre. A sua vida é confusa, mas suas ideias são brilhantes. Mas o retorno de um apavonado colega do seu passado, Sujarchuck (Leonardo Sbaraglia), tira os seus planos e sua paz do eixo. Mas o que poderia se resumir a um punhado de piadas sobre educadores rivais se transforma – numa reviravolta brilhante do guião – num estudo sobre a luta diária de educadoras e educadores. A escrita fina do filme ganha ainda mais viço com a fotografia de Hélène Louvart, que fotografou “A Vida Invisível” (Prix Un Certain Regard 2019 em Cannes).
“Hélène tem um modo invisível de estar no set, fazendo-se notar por sua textura sensível na luz“, diz o cineasta, que se arisca a um balanço sobre a excelência do seu país nas salas “A Argentina vive uma situação económica volátil, que afeta o audiovisual. Temos hoje cerca milhares de estudantes de Cinema apesar disso. Com o aporte de países como o Brasil, numa integração necessária, conseguimos seguir em frente“.
Há mais uma sessão de “Puan” este domingo, no encerramento do festival, às 16h15, no Kinoplex São Luiz.

