Ciente de que o homem é o lobo do homem, Thomas Hobbes (1588-1679) alertava que “a razão é o passo, o aumento da ciência o caminho, e o benefício da humanidade é o fim”, o que se fez ecoar pelas telas de San Sebastián nas citações do autor feitas ao longo da projeção do hilariante “Puan”, na disputa pela Concha de Ouro de 2023.

Um dos títulos mais aplaudidos pela crítica entre os 16 concorrentes da seleção oficial do evento espanhol, o filme é uma aula de Filosofia, assumindo um professor de Teoria Política como protagonista. A realização foi feita em dupla por duas promessas do cinema argentino já premiadas antes em Donostia: María Alché e Benjamín Naishtat. Ela ganhou o Prémio Horizontes Latinos com “Família Submersa”, em 2018, o mesmo ano em que ele, na competição principal, conquistou a Concha de Prata de Realização, por “Rojo”. Junto deles, numa coprodução do audiovisual hispano-americano com o Brasil, está a fotógrafa francesa Hélène Louvart (premiada na Berlinale, em fevereiro, por “Disco Boy”), dando a uma narrativa que parece se calcar em palavras um requinte plástico raro. O uso de cores é de uma elegância impecável.

Habituados a falar de universos dramatúrgicos cercados de contradições, mistérios e traição, María e Naishtat operam com base num universo arejado pelo bom humor, estruturado sobre um guião impecável (e sinuoso) no qual um embate de vaidades intelectuais universitárias vai numa direção sociológica encantadora, abrindo um debate sobre o ensino público na América do Sul e a brutalidade estatal com o corpo docente.

Há um elenco em estado de graças de forma uníssona na longa-metragem, que conversa com o seu conterrâneo “El Estudiante”, de Santiago Mitre (vencedor do Prémio Especial do Júri em Locarno, em 2011), no empenho de mapear as militâncias do sistema estudantil da Argentina. Mitre, entanto, cartografa a Educação sob um viés catastrofista de thriller. Em “Puan”, tudo soa menos plúmbeo, mesmo nas situações mais selvagens enfrentadas pelo filósofo Marcelo Pena, papel que arranca do ator Marcelo Subiotto uma atuação arrebatadora.

É Pena quem cita Hobbes e quem vai dar aulas sobre Martin Heidegger (1899-1976) e o seu “ser aí” num curso particular para uma madame riquíssima, que ronca quando ele avança do devir do pensamento ocidental. Num momento de ebulição da dramaturgia (também escrita por María e Naishtat), essas aulas particulares vão render um episódio afrontoso – de levar a plateia às gargalhadas. Mas o problema de Pena é outro.

Depois de anos de docência, ele tem a chance de assumir o posto deixado pelo seu antigo mestre. A sua vida é confusa, mas as suas ideias são brilhantes. Mas o retorno de um apavonado colega do seu passado, Sujarchuck (Leonardo Sbaraglia, num desempenho genial), tira os seus planos e paz do eixo. Esse rival não encara a Filosofia com respeito. Ele só pensa em holofotes, faz citações em Alemão para soar erudito e namora uma starlet. Mas a sua farta habilidade de saber jogar dentro das regras da prevaricação burocrática expõe a dificuldade de Pena em bajular superiores, em se autopromover e em sacrificar a sabedoria em prol da sua própria glória. Ele leva o estudo a sério, acredita no futuro da universidade como um espaço democrático. Ao exercitar as ideologias e perceber o quanto deixou de desfrutar de seu próprio talento, submetendo-se a regras frágeis, Pena transforma-se numa espécie de herói nada discreto na Odisseia da autoafirmação. Uma Odisseia divertidíssima que não desperdiça um só segundo, num ritmo de montagem irretocável, dado por Lívia Serpa.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
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