Habituado a provocar as audiências, Radu Jude estreou na última edição do Festival de Locarno o seu mais recente filme, “Do Not Expect Too Much From the End of the World” (Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo), um objeto que se multiplica em críticas e sarcasmos à sociedade atual, mantendo o espírito provocador do realizador.
E o famoso, pelas piores razões, Andrew Tate é apenas um dos alvos do cineasta romeno que há dois anos conquistou Berlim com “Bad Luck Banging or Loony Porn”, tudo através de pequenos vídeos que vão ocasionalmente surgindo durante as 2h40 minutos de duração do seu filme, onde a misoginia, o sexismo e muitos outros ismos saltam à vista em cada palavra. “Desprezo-o completamente, os seus valores e ideias. Tudo o que representa. Mas fiquei preocupado e ainda estou porque o meu filho, com 18 anos, de alguma forma, gosta dele”, explicou Radu Jude ao C7nema numa entrevista em Locarno. “Foi por isto que descobri quem é esta pessoa. Comecei a seguir o que dizia e fazia. Assustei-me.”
Descrito pelo cineasta como dois filmes num só, um pouco como antigamente nas duplas sessões de cinema, onde havia um filme principal e outro apelidado de B, “Do Not Expect Too Much From the End of the World” parte de duas histórias reais que aconteceram há muitos anos, mas que agora renasceram na mente, escrita e filmagens de Jude. No filme seguimos Angela (Ilinca Manolache), uma assistente de produção em situação precária que tem como missão ajudar no desenvolvimento de um vídeo encomendado por uma empresa austríaca com filiais na Roménia. Passado grande parte do tempo dentro de um carro, sempre com Julia ao volante, o filme vai revelando personagens no seu caminho, destacando-se a diretora de marketing da empresa de Angela, interpretada por Nina Hoss, e contando até com uma aparição surpreendente do realizador Uwe Boll.

“De certa maneira estas coisas aconteceram à minha volta quando trabalhava como assistente de realização”, explicou Jude. Uma das histórias que inspirou este “Do Not Expect Too Much From the End of the World” foi a de um assistente de produção muito cansado que teve de andar às voltas um dia todo de carro e que por causa da fadiga acabou por morrer num acidente. A outra história aconteceu mesmo a Jude, quando fazia um anúncio corporativo sobre vítimas de acidentes de trabalho: “Tudo isto aconteceu há 15 anos e não vi imediatamente um filme nos eventos. Os anos foram passando e de repente comecei a ver que isto ainda diz muito sobre a Roménia nos dias de hoje. Da economia, da vida, etc”. Já sobre o convite a Boll, o cineasta adicionou: “Não sou particularmente fã do tipo de filmes que o Uwe Boll faz, mas lembro-me que há uns anos criaram uma petição para ele parar de fazer filmes. Isso é algo terrível e cruel de fazer a alguém. Criticar é uma coisa, e acho que o devemos fazer. Faz parte da vida. Aliás, acho que hoje em dia critica-se menos do que se devia. Mas dizer a alguém que devia parar de trabalhar é demais. A forma como ele se mostrou resiliente a isso tudo, tornou-o num modelo para mim. Se isso me acontecesse assim, queria conseguir ser como o Uwe Boll.”
No filme brinca-se ainda com o célebre combate de boxe que opunha Boll com os críticos de cinema, algo que nunca passou pela cabeça de Jude fazer na sua vida, embora já tenho tido um problema digno de registar com um crítico em particular. “A única vez que disse alguma coisa contra um crítico, ele trabalhava para um local que recebia ajuda financeira nacional: o Festival da Transilvânia. Foi alguém que me atacou utilizando o racismo e o antissemitismo quando lancei um filme sobre o Holocausto. Questionei como um critico importante que trabalha para um festival importante, e que recebe apoio de fundos públicos, faz declarações racistas e deixam-no estar. Foi a única situação”.
“Do Not Expect Too Much From the End of the World” estreou nos cinemas portugueses a 1 de maio.

