Aos 20 anos, Juliette Jouan foi a grande descoberta de Pietro Marcello para o seu “Velas Escarlates” (L’Envol), filme estreado na Quinzena dos Realizadores de Cannes a partir de uma história original de Alexander Grin (1880-1932). Esta jovem de Caen, habituada a cantar, estreou-se no cinema ao lado de Louis Garrel e Noémie Lvovsky, num drama que por vezes assume a forma de musical.
No filme ela interpreta a personagem homónima, Juliette, criada pelo pai, Raphael, um ex-combatente da Primeira Grande Guerra, com quem desenvolveu uma relação de grande cumplicidade. Um certo dia, no verão, uma vidente diz-lhe que um dia velas escarlates a levarão para longe da aldeia. Juliete cresce na esperança de que a profecia se concretize, até que conhece Jean (Louis Garrel), um homem cujo avião se despenhou perto da aldeia.
Foi em Paris, em janeiro passado, que estivemos à conversa com esta jovem cantora e atriz cuja ambição é mesmo continuar a trabalhar na 7ª arte.
Como foi a experiência de trabalhar com o Pietro neste filme?
Foi uma experiência alucinante (risos). Quando me dei conta do casting, que descobri por acaso num email, não sabia que era o Pietro a realizar. E só sabia que a personagem se chamava Juliette, tinha 20 anos e cantava. Sou cantora e por isso interessei-me no papel. Ele contactou-me, fiz uns vídeos e ensaios em Paris. Ele viu em mim a espontaneidade. Como vem dos documentários, gosta que os atores não estejam assim tão próximos da personagem, deixando-nos muito livres para lidar com ela. Para mim, que não tinha referências, foi excecional.
O facto de ter experiência musical foi fulcral para a sua escolha para o papel?
Sim, ele procurava alguém que soubesse cantar. Na verdade, a forma como canto no filme não tem nada a ver com o que faço normalmente. Tive mesmo um coach para me ensinar a cantar da forma que vemos no filme e trabalhei muito com o compositor, Gabriel Yared. Foi ele que descobriu que eu também sabia tocar piano e convenceu o Pietro para eu tocar no filme. O Gabriel Yared, que é um gigante na composição para cinema, e o Pietro, que sabia que eu também compunha temas, desafiaram-me a escrever músicas para o filme. Fi-lo, com letra e tudo, e filmamos, mas uma não passou na montagem. A outra surge quando toco piano.
Crê que a presença neste filme abriu-lhe portas para um futuro na atuação?
Não sei, é cedo para dizer isso, mas posso afirmar que aprendi imenso nas filmagens. Principalmente na questão da liberdade que tive e o facto de poder propor coisas. O Pietro deixa-nos construir a personagem, a história, etc. Às vezes repetimos cenas, com outra entoação, etc. O facto de ser italiano, e na altura não estar tão à vontade com o francês como agora, permitia-me também improvisar em algumas palavras.
Sendo o seu primeiro grande papel, viu-se de repente no Festival de Cannes. Como foi essa experiência?
Foi algo gigantesco. Descobri que é um festival muito forte na promoção dos filmes e gostei bastante de estar lá. Mas quero regressar um dia e ver filmes (risos). Desta vez só estive lá mesmo para ver a promover o filme em que participei.
Vai continuar na música, se a carreira de atriz “explodir”? Tem um plano para a carreira?
O meu plano é continuar no cinema, mas manter ao lado alguns projetos musicais sem estratégias de comercialização.
Sobre o cinema de hoje em dia – especialmente após o #metoo – fala-se muito em “male gaze”. Por outro lado, há toda uma “nova” geração de cineastas francesas a dar cartas: Julie Ducourneau, Justine Triet, Céline Sciamma. Crê que existiram boas mudanças no cinema após a chegada desse movimento.
Sim, sem dúvida e posso dar um exemplo.no filme do Pietro. Há uma cena em que a Juliette e o Jean estão perto do avião. No guião, o Jean abraçava-a e tentava beijá-la. Ela afastava-o, até finalmente ceder. Filmamos assim, mas o Pietro viu e disse: esta cena já não funciona hoje em dia, não pode estar no filme. É uma questão do….
O não significa não…
Exatamente. Isso podia acontecer no passado, mas não é algo para os nossos tempos. E fico claramente agradada ao ver cada vez mais mulheres instaladas nesta indústria. Sobre a questão da representação no cinema, há muito trabalho a fazer.

Nas representações raciais…
Sim. Por exemplo, quando vemos um elenco constituído principalmente pelas minorias em França é, frequentemente, um filme de bairro dos subúrbios. E é bizarro repetir esses filmes, como se existisse um género de “filme dos suburbios”. Espero que as coisas mudem no futuro. Sinto que há muita coisa a progredir, mas outras a regredir. Veja-se na política…
Fiz esta questão aos Dardenne, por causa do seu filme “Tori e Lokita”. Hoje em dia vemos imagens do drama dos migrantes, de crianças mortas na praia, etc, etc, mas simultaneamente as ideias de extrema direita crescem um pouco por todo o lado. Será que o poder da imagem perdeu-se pelo facto destas estarem em todo o lado?
Sim, a imagem tem menos força que no passado. Provoca menos choque. Estamos habituados a ser atropelados por elas e normalizámos muita coisa. A imagem já não tem a força que tinha antigamente.
As redes sociais contribuíram bastante para isso…
Sim. Eu percebo a ideia de vivermos os nossos tempos e de falar às gerações mais novas, mas as tendências, etc, apenas vão acentuar os clichés. Isso realmente assusta-me.
Um produtor disse-me recentemente que há já muitos atores a serem escolhidos não pela qualidade artística, mas pelo numero de seguidores nessas redes sociais. Como jovem atriz, como vê isso?
A sério? Bem, eu percebo que nos tornemos mediáticos quando somos atores, mas essa opção dos produtores apanhou-me de surpresa. Oh la la… Nem sei o que dizer…
É uma figura ativa nas redes sociais?
Sim, gosto bastante do Instagram. Permite-me falar a imensa gente ao mesmo tempo e tem um lado artístico, de criação. Quando publico uma coisa é como se fosse uma história que lanço para o mundo, mas isso não é todo o meu trabalho. É um complemento.
Falando nessa questão de criação, considera um dia trabalhar do outro lado da câmara?
Talvez, pois gosto de pôr as mãos em cima de tudo. Porém, por outro lado, neste momento não tenho nenhuma história a contar. Talvez um dia apareça algo que me motive a realizar ou escrever um filme.
Tem algum projeto na agenda?
No cinema não, mas na música sim: vou continuar a cantar a solo e tenho ainda uma banda de covers do Michael Jackson (risos).

